Divagações
   O Mundo Muçulmano

Leia a entrevista completa em http://br.groups.yahoo.com/group/historia-ugf/message/1181

 

ENTREVISTA
Quebrando preconceitos e estereótipos sobre o mundo muçulmano


Juliano Gouveia / USP Online

Desfazer uma visão estereotipada da cultura islâmica, oferecendo um panorama que afaste preconceitos e esclareça mal-entendidos. Isso é o que propõe o professor Peter Demant, do departamento de História da FFLCH, em "O Mundo Muçulmano", título recém lançado pela Editora Contexto (
Clique aqui para saber mais). O professor Demant concedeu entrevista ao USP Online falando sobre as motivações e o significado do seu livro.

Por vezes, os noticiários das agências internacionais, ao enfocar a conjuntura alarmante do Oriente Médio e suas cenas de extremismo e terror, são carentes de uma compreensão adequada das raízes e motivações - culturais, religiosas, históricas - das situações que retratam. O livro se propõe a oferecer um olhar diferenciado sobre o mundo islâmico, evitando generalidades empobrecedoras e perigosas quando se trata de uma cultura tão vasta e rica quanto complexa.

Holandês, doutor em seu país sobre a colonização israelense, o autor ainda morou e pesquisou em Jerusalém, chegando ao Brasil em 1999. Desde então, leciona Relações Internacionais e História da Ásia na USP. Nessa sua recente publicação, busca nas raízes e idéias muçulmanas, na sua expansão e desenvolvimento, a chave para o entendimento do mundo islâmico atual. A obra, dividida em três seções - "Ontem", "Hoje" e "Amanhã" -, procura aclarar como se relacionam tradição gloriosa, presente radical, e um futuro dependente de novas interpretações e diálogos. Confira abaixo a entrevista concedida por Peter Demant, com exclusividade para o USP Online.


USP Online - Quais são os cuidados e as dificuldades em escrever uma história dos muçulmanos para o Ocidente?

Peter Demant - Eu acho que a situação aqui no Brasil é um pouco mais grave do que na Europa ou nos Estados Unidos. Na Europa há muitas publicações sobre o islã, o mundo muçulmano, questões de coexistência, por uma variedade de motivos. Em primeiro lugar, esses países foram historicamente de colonizadores e tiveram muito mais contatos com a cultura islâmica; em segundo lugar, eles têm mais claramente uma população de imigrantes de origem árabe-muçulmana. No Brasil, nós temos a maior concentração de Líbano-descendentes, mas isso é muito mais assimilado culturalmente. E também há, naquelas regiões, uma tradição acadêmica mais desenvolvida nessas questões. Como resultado, eu escrevi esse livro para um público especificamente brasileiro. Isso quer dizer que eu tive que dedicar boa parte do meu espaço para questões de definição, diferenciando, por exemplo, "árabes" de "Oriente Médio", do "islã", e do "islamismo". Embora muita gente associe essas coisas, a gente pode ver que o mundo muçulmano é muito mais amplo. Por exemplo, os árabes representam apenas um quinto desse mundo.

USP Online - Nesse sentido, o que o leitor brasileiro pode esperar do livro?

Demant - Pode esperar um esclarecimento bastante abrangente de questões que podem ser encontradas cotidianamente nos jornais e que são de extrema atualidade e importância para o futuro do nosso planeta e para a coexistência entre diferenças, mais especificamente a coexistência entre o mundo muçulmano e este outro mundo, do qual também o Brasil faz parte, que é mundo Ocidental.

USP Online - Há de fato um Oriente, ou ele é uma construção ideológica?

Demant - Eu explico no livro que há leituras que consideram o Oriente como um conceito ideológico, e, evidentemente, também o Ocidente. Isso não quer dizer que diferenças não existam, nem que o mundo muçulmano não tenha traços e características que o diferenciem de outras civilizações (e, claro, que aqui a religião tem um papel importante). Ambas as coisas podem coexistir: diferenças na realidade social que, depois, também são usadas como base para ideologizações. Em certa medida nós temos também o espelho: o mundo muçulmano também possui visões extremamente ideológicas do Ocidente.

USP Online - Qual é o exemplo histórico oferecido pelo islã no contato com o Outro, com a diferença?

Demant - O mundo muçulmano historicamente apresentou um comportamento muito mais tolerante para com suas minorias do que o mundo cristão com as minorias na cristandade. Podemos lembrar que ambas as religiões são monopolistas da verdade, expansionistas, que, em princípio, querem converter todo o resto do mundo. Contudo, o islã aceita o judaísmo e o cristianismo como antecedentes legítimos de sua própria religião, como formas um tanto modificadas da mesma mensagem de Deus. Assim, essas religiões têm um papel reconhecido e protegido dentro de uma sociedade religiosa, resultando em uma tolerância - mediante certas desqualificações sociais, econômicas e outras.

USP Online - Como é encarado esse conceito de tolerância no mundo muçulmano?

Demant - Os conceitos são entendidos diferentemente. Nós temos que lembrar que, no Ocidente, o conceito de tolerância é essencialmente pós-cristão. O mundo católico medieval não praticou nenhuma tolerância, nem para tendências heterodoxas dentro do próprio cristianismo, para não falar de casos extremos como as minorias judaicas e muçulmanas na Europa. Quando a tolerância se desenvolve como conceito, isso já é iluminista, ainda que com base em pensadores renascentistas. Essencialmente, é um pensamento que pressupõe que, destituídos de um critério para conhecer a verdade absoluta, nós precisamos deixar que cada um busque o seu próprio caminho. O conceito ocidental é realmente uma tolerância de indiferença. O islã, tanto quanto o cristianismo, está absolutamente convencido que é detentor da verdade. Assim, sua tolerância é mais uma concessão na esperança de que aqueles que ainda não aceitam o islã, aceitarão. Tem algo de provisional, condicional. Com isso, eu acho que o islã tem um conceito pré-moderno. Hoje a discussão recai sobre os valores pós-cristãos do Ocidente. Os valores centrais do Ocidente estão bastante controvertidos, por exemplo, a tolerância com o outro. Não é um conteúdo, mas uma regra que facilita a convivência; por exemplo, os Direitos Humanos são regras, não são valores em si. O problema é saber o que é essencial para a civilização Ocidental, e se esses "valores" são específicos de uma civilização ou universalizáveis, possibilitando uma coexistência entre todas as civilizações.


 Escrito por Rodrigo Farias às 12h54
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   Astrônomos dizem ter localizado 10º planeta do sistema solar
08h49 - 15/03/2004


David Whitehouse

Astrônomos do Instituto de Tecnologia da Califórnia afirmaram ter detectado o que pode ser o décimo planeta do sistema solar.

Encontrado a uma grande distância dos outros planetas pelo telescópio espacial Spitzer, lançado recentemente, o novo planeta foi batizado como Sedna - nome da deusa dos oceanos dos inuit.

Observações indicam que o planeta pode ter um diâmetro de 2 mil quilômetros ou pode ser maior do que Plutão, que tem um diâmetro de 2,25 mil quilômetros.

O anúncio deve estimular um debate para determinar se Sedna pode ser realmente classificado como um planeta. Alguns astrônomos já afirmam que a descoberta redefine o sistema solar.

Um grupo de astrônomos acredita que Plutão não é um planeta de verdade, mas apenas um dos maiores dentro do grande número de corpos celestes pequenos na parte externa do sistema solar.

Plutão

Sedna também foi identificado pelo telescópio espacial Hubble. A Nasa, agência espacial americana, deve anunciar nesta segunda-feira detalhes sobre a descoberta.

O novo planeta é o maior corpo celeste encontrado orbitando o Sol desde a descoberta de Plutão, em 1930.

Sedna foi encontrado durante uma pesquisa liderada por Michael Brown, do Instituto de Tecnologia da Califórnia.

Os cientistas estão apenas na metade de um projeto de investigação programado para três anos.

Cálculos preliminares sugerem que o planeta está a 10 bilhões de quilômetros da Terra, em uma região do espaço conhecida como Cinturão de Kuiper.

O Cinturão de Kuiper contém centenas de objetos conhecidos, e os astrônomos acreditam que há muitos mais para serem descobertos.

Rocha e gelo

A maioria dos corpos celestes são pequenos mundos de rocha e gelo, mas alguns, como Sedna, podem ser maiores do que Plutão.

A importância de Sedna é que se trata do primeiro corpo celeste desse tipo descoberto em sua órbita normal.

Outros, como Quaoar e Varuna, são semelhantes, mas menores, e, embora sejam originários do Cinturão de Kuiper, foram impulsionados a diferentes órbitas.

Depois da descoberta do corpo celeste, os astrônomos no Observatório de Tenagra, no Estado americano do Arizona, receberam pedidos para fornecer informações sobre a posição dele, para que se possa determinar uma órbita para Sedna.


 Escrito por Rodrigo Farias às 09h43
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   Tempos melhores na China

China Approves Amendments to Constitution on Human Rights

By CHRIS BUCKLEY

Published: March 15, 2004

BEIJING, March 14 — China's Parliament formally approved constitutional amendments on Sunday that address private property and human rights. At the same time, the country's new prime minister promised to rein in the overheated economy.

The steps came on the closing day of the annual meeting of the National People's Congress, during which Prime Minister Wen Jiabao and other top officials continued their efforts to recast the government as a protector of the poor and powerless.

Chinese legal experts and even lawmakers said the changes, which were decided in closed-door sessions of the governing Communist Party last fall and formally approved Sunday, would not remove government restrictions on protest. China's Constitution is subordinate to the party and is amended often to reflect changes in official ideology.

In a news conference at the end of the legislative session, Mr. Wen indicated that the government would maintain a piecemeal approach to political changes while focusing on the economy and the rickety banking system.

"I think this test won't be any less easy than SARS," said Mr. Wen, referring to the epidemic that spread across China last year. "If we adjust well, we may be able to keep the ship of the Chinese economy steady at a relatively fast clip. If we don't, it will be difficult to avoid setbacks."

The 2,900-member legislature approved 13 changes to the Constitution. "The state respects and preserves human rights," says one. "Citizens' lawful private property is inviolable," states another, as well as saying the state will protect private property and give compensation when property is confiscated.

The legislature also authorized introducing major slogans associated with the country's semiretired leader, Jiang Zemin, into the Constitution, thus placing him on an official ideological dais beside Mao Zedong and Deng Xiaoping.

The constitutional changes were unlikely to have any direct influence on the outcomes of court cases, said Chinese legal experts, because the courts here usually do not test laws and government decisions for fidelity to the Constitution.

"The new constitutional provisions are very vague, and won't mean much unless laws are revised to conform with them," said He Weifang, a professor at the Beijing University law school. "They're more important symbolically rather than legally."

The private property amendment was a recognition of private business's growing economic and political might, rather than an effective legal guarantee, said Mr. He and other legal experts.

The view was echoed even by lawmakers. "The Constitution isn't a law," said Zhao Linzhong, a businessman and national legislator from Zhejiang. "The changes will settle people's minds."

At a news conference marking his first year as China's top government official, Mr. Wen said he would try to make officials more law abiding and honest by encouraging public scrutiny and collective decision-making. But he also said the Constitution must be left under party jurisdiction.

Asked about the government's stance on Taiwan's coming presidential election and referendum on relations with the mainland, Mr. Wen kept to the muted approach taken by mainland officials in recent weeks.

On March 20, Taiwanese will choose between the incumbent president, Chen Shui-bian, who China fears will lead the island toward independence, and the Nationalist Party candidate, Lian Chan, who favors a more conciliatory approach to the mainland. Chinese officials have generally avoided threats that may drive more votes to Mr. Chen.

Mr. Wen said his government was adamantly opposed to any form of Taiwanese independence, but he avoided mention of military action.

Mr. Wen also dismissed a recent call by a prominent Chinese surgeon, Jiang Yanyong, to reverse the official condemnation of the Tiananmen Square political protests of 1989. At the outset of the parliamentary session, Dr. Jiang circulated a letter calling on top government and party leaders to review the student-led protests and condemn the use of force to squelch them.

"Unity and stability are really more important than anything else, and that's what I'm most concerned with as prime minister," Mr. Wen said.



 Escrito por Rodrigo Farias às 09h42
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   Visitantes

Algo muito interessante aconteceu nestes dias. O contador do blog pulou em quase 150 visitas! Por Zeus, poderei crer em meus olhos? Moira finalmente se lembrou deste espaço e me agraciou com melhores decretos?

Ao mesmo tempo, recebi vários comentários, especialmente sobre os últimos três posts. Desde uma crítica, quase uma reprimenda moral, por escrever sobre as injustiças da audiência, até convites. Sim, meus caros leitores (agora 5 ou 6!)! Fui convidado... a visitar outros blogs e sites. Não deixa de ser um convite, e dos mais gentis. A todos que o fizeram, pois, o meu muito obrigado.

Um fato que me chamou a atenção foi a faixa etária de boa parte dos comentadores, formada por adolescentes. Não tinha ainda atentado para o perfil médio do blogueiro no Brasil, pois ainda conheço poucos. Mas parece que há uma porção bem considerável de jovens ainda no colégio usando esse recurso para dizer o que pensa ao mundo ou, o que deve ser mais freqüente, usá-lo como um diário público. Uma transformação interessante da velha agenda ou caderno repleto de segredos, guardião dos segredos mais íntimos e companheiro de dilemas de tantos milhões mundo afora. Isso bem vale algumas reflexões. Talvez volte ao assunto mais tarde.

Por ora, apenas reitero os agradecimentos àqueles que se deram o trabalho de registrar sua passagem por aqui. Se, além disso, acharem que o Divagações merece um link em seu blog ou site, estejam à vontade. Saber-se apreciado é sempre muito bom. Sejam todos muito bem-vindos!

 



 Escrito por Rodrigo Farias às 18h27
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   Convites

É vasta a gama dos sentimentos humanos e, além daqueles mais conhecidos, existe toda uma horda de subtipos, a que nem todos darão a devida atenção ao longo de uma vida. Desse grupo mais exótico, um dos mais curiosos, e também mais insuportáveis, é aquele que algum sábio talvez venha a batizar pomposamente de invitatio desideratum. Ou, se ele for tão mau latinista quanto eu, o desejo de ser convidado.

Terrível patologia do espírito, de incubação incerta e duração variável, esse traiçoeiro desejo suplicia a vítima de forma filosoficamente cruel. Trata-se, se refletirmos um pouco, de uma doença silogística, tão boa na lógica que poderia bem ter sido pupila dileta do grande Aristóteles. Meus 3 ou 4 leitores, a maioria dos quais têm noções de filosofia (o outro parou aqui por engano), devem achar bizarra essa noção, já que sentimentos e racionalidade costumam ser vistos como súditos reinos diferentes. Mas nem sempre é assim, e a prova está no desejo de ser convidado. Este é, afinal, um distúrbio rigorosamente silogístico, e é aí que reside sua crueldade. Vejamos como ele age sobre a psique do doente:

1 - Convites devem ser espontâneos.
2 - Eu quero ser convidado.
3 - Logo, não devo provocar o convite.

Como se vê, o invitatio desideratum é maligno a um grau geométrico. O infeliz que padece desse mal não apenas se aflige à espera de um convite, como, para bem satisfazer essa necessidade, não pode simplesmente pedir a um amigo que o chame para alguma coisa. Pelo contrário, deve contentar-se em aguardar, discretamente segurando seus impulsos, no máximo traindo aqui e ali sua peculiar disposição. Também pode, é claro, lutar com o vírus que lhe assola o cérebro entediado, opor-lhe uma resistência de eremita, em luta para convencer-se de que aquilo logo vai passar. Terá sucesso? Alguns eleitos certamente que sim, e poderemos reconhecê-los facilmente, a entoar mantras incompreensíveis, ficar horas em posições de dar cãibra a serpentes ou recitando o calendário litúrgico de cor. Os demais, porém, curam-se apenas com o tempo, purgando em fins de semana modorrentos o excesso de energia, ou distraindo-se de improviso em programas que eles mesmos tiveram de conceber e convidar outras pessoas...

Quanto àqueles que sofrem da forma mais virulenta desse desejo, pois esperam por um convite específico, esses são os apaixonados. Não há remédio para eles... São casos além da nossa vã medicina. 



 Escrito por Rodrigo Farias às 23h31
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   Afinidades

O fenômeno é conhecido, clássico, até. Encontra-se uma pessoa pela primeira vez, trocam-se algumas palavras e em questão de minutos elas se comportam como amigos de anos. A mais genuína simpatia transparece dos sorrisos, polidos a princípio, soltos e despreocupados depois. No olhar,  a muda cumplicidade que vale mais que mil gentilezas verbais, lampejando em frases alegres e tiradas espirituosas. Ao cair o tom do diálogo, talvez após uma ou outra olhada no relógio, a muda esperança, primeiro, e a iniciativa experimental, se necessário, de uma proposta gentil para um novo encontro. Então, por um momento indefinível, o suspense... Qual será a resposta? Um "É claro!" entusiasmado, ou um vago "É, vamos marcar um dia...", eufemismo educado e típico para "Até nunca mais!"?

 Pode ser que nunca mais se vejam e a sintonia instantânea se perca no vácuo da memória. Mas pode ser também que um dia, a casualidade apareça na forma de um encontro inesperado na rua, um reconhecimento numa fila de banco, uma coincidência de horários num evento qualquer. E tudo ressurge: a mesma facilidade no trato, a semelhança dos gostos, a linguagem afim. E, enquanto se falam algo sôfregos, na pressa da rua, no andar da fila ou no silêncio imposto pelo evento, a expectativa de “Nos veremos de novo?”. Raios não caem duas vezes no mesmo lugar, dizem anexins de velha data. Ou caem?

Basta trocar telefones, dirá o senso comum. Entretanto, quantos números constam inermes na agenda, sem uso presente e tampouco futuro? Frutos de encontros cordiais que, no entanto, não tiveram a fagulha essencial que levasse ao desejo do reencontro. Meros marcos da superficialidade de afetos que não maduraram... Ainda assim, lá está o número, mais um em longa lista. Brilhará dentre os outros por algum tempo, quase num convite. Terá sucesso? Pois são tantos os números, e tão poucos os pretextos, esses fiapos de dignidade que sustentam os trêmulos e acolhem os frustrados.

 Ligar ou não ligar? Mil possibilidades passam em flash pela mente acabrunhada, de panoramas de romance à crueza do mais duro realismo. A afinidade espontânea pode ter sido unilateral, uma traquinagem do inconsciente, wishful thinking de um momento frágil da razão. Do outro lado da linha pode vir uma desculpa em tom gentil, uma voz rouca de indisposta, um “Não tenho tempo” formal em tom de sentença. E a chama do entusiasmo, alimentada por imagens marcantes daqueles encontros fortuitos, tremula pálida em meio a esses terrores escuros que intimam à inação.  E, por um momento, vê-se em prece ao Destino, a implorar por mais outro acaso feliz, mais um encontro inesperado (esperado?), para, quem sabe, quem sabe...

 Impávida, a agenda espera, um número a rebrilhar em meio aos frutos de acasos sem sabor, quase num convite...

 Ligar ou não ligar?



 Escrito por Rodrigo Farias às 23h17
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   "Invidia"

Caros leitores, saibam que este será um post mesquinho. Se quiserem continuar com o piedoso apreço que dedicam a este blog, pulem para o seguinte, se houver, ou fiquem com os anteriores... 

Este pequeno espaço completa um mês de vida, mais ou menos, e já conta com 178 visitas registradas. Destas, metade são de mim mesmo, brigando com a formatação dos posts e com minha inexperiência (aparentemente, uma batalha já vencida; notaram as fontes maiores? ). Ou seja, quando muito, devo ter recebido menos de 90 visitas de verdade nestes dias. Menos de 90...

Não obstante, certos outros blogs, com exatamente a mesma idade, já contam mais de 2200 visitas! Dois milhares de cliques! E falando sobre o quê? Recados para amigos, agradecimentos ao jornaleiro e, no máximo, umas poesias copiadas (que nem são tão boas assim...) e alguns textos com algumas informações jornalísticas...

Pelos cachos de Medusa! Por que tanta injustiça? Por quê? Por quê????

(Ah, Fúrias, me respondam: será que se eu escrever sobre o novo hit do mundo funk usando apenas os 50 ou 60 vocábulos dos especialistas, ou puser umas fotos das novas 3545 louras do Tchan, a minha audiência aumentará?)  



 Escrito por Rodrigo Farias às 23h16
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   O Gigante

Caminhava ele calmamente na escuridão noturna.
Seu aspecto era tão terrível quanto a noite.
Andava sozinho, como se a terra
Não tivesse criado outro glorioso senhor.

Pisava orgulhosamente o solo,
Como a neblina toca os escombros.
Como se seu corpo, dentro das vestes,
Fosse feito de luz, de barro e de bruma.

Perguntei-lhe: "Ó fantasma,
Que dificultas a marcha da noite,
És um gênio ou és humano?"
Respondeu, irritado,
E suas palavras exprimiam desdém:
"Eu sou a sombra do destino."

"Não, fantasma, retorqui, o destino expirou
No dia em que a parteira
Me estreitou entre seus braços."
Replicou, indeciso: "Eu sou o amor.
E ninguém teria vida se não houvesse amor."

"Não, esclareci, o amor é uma flor
Que não sobrevive à primavera."
Retorquiu, irado,
E em sua voz se ouvia o fragor do mar:
"Eu sou a morte implacável."

"Não, respondi, a morte é uma aurora:
Quando irrompe,
Desperta de seu sono os que dormem."
Ele disse, orgulhoso: "Eu sou a glória.
Quem não me alcança , morrerá na enfermidade."

"Não, repliquei, a glória é uma sombra
Que se desvanece entre o esquife e a sepultura."
Ele disse, apreensivo: "Eu sou o mistério
Que paira entre a alma e o corpo."

"Não, observei, este mistério, quando desvendado
Pelo despertar da razão,
Desaparece como um sonho."
Replicou, ofendido:
"Basta de perguntar-me quem sou eu."
Respondi: "Perguntar merece repreensão?"

Retorquiu, desaparecendo em seguida:
"Eu sou tu.
É inútil perguntar à terra e ao céu por mim.
Se desejas conhecer-me,
Olha-te no espelho."

Disse isto e sumiu
Como fumaça dissipada pelo vento.
E meus pensamentos ficaram vagando
Entre as sombras da noite,
Até o amanhecer do dia.


(Curiosidades e Belezas, trad. de Mansour Chalita)

 Escrito por Rodrigo Farias às 22h07
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Do Primeiro Beijo

É o primeiro gole de néctar da Vida, numa taça ofertada pela divindade. É a linha divisória entre a dúvida que engana o espírito e entristece o coração, e a certeza que inunda de alegria nosso íntimo. É o começo da canção da Vida e o primeiro ato do drama do Homem Ideal. É o vínculo que une a obscuridade do passado com a luminosidade do futuro; é a ponte entre o silêncio dos sentimentos e a sua própria melodia. É uma palavra pronunciada por quatro lábios, proclamando o coração um trono, o Amor um rei e a fidelidade uma coroa. É o toque leviano dos dedos delicados da brisa nos lábios da rosa — pronunciando um longo suspiro de alívio e um suave gemido.

É o começo daquela vibração mágica que transporta os amantes do mundo das coisas e dos seres para o mundo dos sonhos e das revelações.

É a união de duas flores perfumadas; e a mistura de suas fragrâncias, para a criação de uma terceira alma.

Assim como o primeiro olhar é uma semente lançada pela divindade no campo do coração humano, assim o primeiro beijo é a primeira flor nascida na ponta dos ramos da Árvore da Vida.

(Gibran Khalil Gibran)



 Escrito por Rodrigo Farias às 13h53
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   Dificuldades técnicas

O UOL pode ser prático, mas tem seus inconvenientes. É muito difícil regular a aparência de cada post. Geralmente, a letra fica menor do que o desejável, num ridículo e lilliputiano Arial 8. Meus 3 ou 4 leitores, dois quais a maioria certamente usa óculos, devem estar sofrendo com isso. Que fazer? Que fazer?

 Escrito por Rodrigo Farias às 16h34
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   Percepções

Maya. É o nome dela. A maior, talvez a única, inimiga da humanidade. Guerras, pestes, fomes e ódios jazem em sua mão esquerda; prazeres, contentamentos, paixões e ambições agitam-se em sua mão direita. Nenhum poder se compara ao seu; nenhum cai tão depressa, ao colidir com uma alma forte.

 

Pois Maya nada mais é que a ilusão. Por causa dela sofremos; por causa dela fazemos sofrer aos outros; por causa dela nos desviamos a todo momento da senda da verdade, fascinados por brinquedos efêmeros e tentações pueris que nada significam em nossa eternidade. Sim, porque esse é o preço do jogo de Maya: uma infinitude que se desperdiça em não olhar para si mesma.

 

Os orientais de há muito nos alertam para essa fera gentil, esse demônio suave que nos sussurra belas palavras e nos mata com suas carícias. Os hindus o personificaram em célebre duelo com Buda. Os seguidores do vitorioso Gautama tentam repeti-lo até hoje, sem o mesmo sucesso.

 

E por que olhar para essa fábula, essa farsa mitológica de uma cultura distante? Porque nada é mais verdadeiro do que a lição nela encerrada. O poderosíssimo Maya, de abraços cálidos e rugido titânico, é mais do que uma figura de lenda, uma deidade das inúmeras que abundam mundo afora, e sobretudo pela terra dos Vedas. Não. Maya é a  mais real das forças cósmicas, a mais palpável e também a mais invisível, oculto em sua onipresença. Como o oceano não é percebido pelos peixes até que sejam retirados da água, assim também não enxergamos esse poder de névoa que nos traga. Maya está em toda parte e em lugar algum.

 

Não é assim com todos nós? Quantas vezes não nos pegamos esquematizando a realidade, generalizando o mundo, encaixando o infindável torvelinho da vida em sisteminhas próprios disfarçados de verdade? Quantas vezes nossas certezas não são desmascaradas pelos acontecimentos, e percebemos, em retrospecto, a leviandade com que nos deixamos acreditar nisso ou naquilo? Quem nunca se percebeu optando por uma tese, um credo, uma impressão menos por ela mesma do que por uma preferência irracional e quase irresistível, tanto mais forte quanto menos refletida? E, no entanto, em tantos momentos, é ela que ditará nossas ações, nossa visão de mundo, nossos valores.

 

Há poucos séculos, embriagados por uma nova visão luminosa, algumas das grandes mentes ocidentais creram que a Razão seria o guia messiânico da humanidade. Como um novo Moisés, essa Força Titânica nos libertaria do Egito das paixões desenfreadas, das tradições incontestes, dos abortos do caráter. A fé racional elevaria este horda de desorientados perdidos entre tristezas e violências até a sociedade perfeita, de cujos chafarizes poligonais manariam o leite e o mel para os intelectos famintos e os caracteres mal cultivados. “O mal nasce da ignorância”, decretavam os sábios, prontos para ganhar o mundo para as futuras gerações.

 

Fracassaram inapelavelmente. O mundo avançou, e a humanidade continuou exercendo sua maldade, agora por meios novos. Os próceres da Razão, em seu entusiasmo, não perceberam que a ignorância a que juraram combater, o vazio interno do qual brotavam a selvageria e o egoísmo, não era de números e teoremas, poemas e gramáticas. Suas raízes eram mais profundas. Não podiam ser arrancadas apenas com raciocínios...

 

Maya, essa ausência presente, não se funda na racionalidade, e não se curva a ela. A razão é mero instrumento, geralmente brandido às cegas no nevoeiro da ilusão. Sozinha, pode bem pouco, solitário machado a lutar com troncos espessos em uma floresta. Pois Maya se entranha no próprio ser do indivíduo, nas suas sensações, nos seus impulsos, nas suas necessidades imediatas, no que prende a atenção no exterior, no superficial, no que satisfaz, para que não se vá adiante. Áreas, portanto, estranhas à linearidade da razão cotidiana.

 

Que fazer então? Como vencer essa teia, romper a neblina de impermanências que recobrem o mundo? Talvez ousando na escuridão, no abismo onde a ilusão se aloja e reina. Plantar em seu campo até então largado à intempérie da inconsciência, alimentar seus canais com outras águas, rasgar suas brumas com a luz da consciência possível. Aí, sim, jogando suas próprias forças a nosso favor, é que poderemos derrotar Maya, não destruindo-a, mas aquietando-a o bastante para que possamos abrir os olhos e ver... não o que vemos, não o que percebemos, mas  o que é.



 Escrito por Rodrigo Farias às 21h57
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   O Corvo

The Raven é um dos mais impressionantes poemas já escritos, e ninguém jamais o traduziu com tanto vigor quanto Fernando Pessoa...

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    O CORVO
    (de Edgar Allan Poe)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.

É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.

Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,

Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."

Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".

Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais

Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,

Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!

Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,

Libertar-se-á... nunca mais!


 Escrito por Rodrigo Farias às 13h02
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