Ciência x Religião nas escolas fluminenses
Que a ascensão da família Garotinho ao governo do Rio de Janeiro foi evento de péssimo agouro para o estado não é segredo para ninguém. Após um período promissor de idéias e iniciativas originais, o que se descobriu foi um político egocêntrico e pouco escrupuloso, que não respeita a dignidade do cargo, demite seus secretários pela TV sem maiores razões, encobre a falta de projetos concretos com iniciativas assistencialistas (até boas, quando parte de algo maior, o que não é o caso) e parece não apreciar a separação entre Estado e igreja. Agora, depois de tentar chegar à presidência por meio do marketing das igrejas evangélicas -- ambiente propício para seu messianismo inconseqüente, o sr. Garotinho, sob a fachada de sua esposa, instituiu o ensino religioso nas escolas estaduais. Ensino confessional, aliás, o que significa que o dinheiro dos contribuintes irá financiar um tipo de instrução que já existe, e em melhores condições, nas inúmeras igrejas do estado. Enquanto isso, enquanto faltam professores das matérias básicas... Pois muito bem. Apesar da medida ser altamente discutível, muitos eleitores a apóiam. Contudo, agora o casal Garotinho se superou, e deu mostrar de que realmente tem simpatias teocráticas. Já não bastassem as tantas tolices que importamos do exterior, agora, sob as boas graças da nossa Sagrada Família fluminense, temos mais uma, ligeiramente mais provecta: o ensino do criacionismo nas escolas. Para quem não sabe, a idéia de que o relato bíblico da criação em Gênesis é uma "verdade científica". Algo que rendia boas polêmicas nos tempos de Darwin, mas que hoje faz tanto sentido quanto discutir quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete; o que não impede que o fervor mal direcionado torne o criacionismo uma disciplina obrigatória em certos estados dos EUA, como se verá na reportagem abaixo.
Quem quiser conhecer melhor os argumentos de ambos os lados, vale a pena visitar o Talk.origins Archive, em inglês, ou a Sociedade da Terra Redonda, em nosso idioma.
Polêmica sobre criacionismo chega às escolas do RJ Rosinha e Garotinho defendem o criacionismo
Maiá Menezes escreve para 'O Globo':
A revelação de que a governadora Rosinha Matheus é adepta do criacionismo, feita por ela a 'O Globo' há duas semanas, trouxe à luz uma discussão que agora chega aos bancos escolares do estado.
A teoria sobre a origem do mundo e dos seres humanos baseada na interpretação textual da Bíblia será ensinada no Norte Fluminense, terra da governadora. Os 31 professores que passaram no concurso para dar aula de religião na região decidiram, há duas semanas, incluir a teoria no currículo escolar.
Também criacionista, o professor Jeová Ferreira, de 33 anos, garante que não vai evangelizar os alunos, mas transmitir conhecimento sobre sua religião.
Jeová foi um dos profissionais selecionados para dar aula de religião nas escolas de Campos. Ao todo, no estado, foram escolhidos 500 professores. O edital previa a contratação de 342 profissionais católicos, 132 evangélicos e 26 de outras religiões.
'A decisão de ensinar o criacionismo é pacífica entre os professores. A teoria será ensinada como mais uma corrente de pensamento, não será uma imposição, ao contrário do evolucionismo, que é ensinado nas escolas como teoria científica. Os alunos têm o direito de conhecer as diferentes correntes de pensamento - disse Jeová.
'Tenho certeza de que minha avó não era macaca'
O professor, que até os 23 anos era católico e hoje é evangélico, resumiu assim sua descrença na teoria da evolução das espécies:
'Pode botar aí: tenho certeza de que minha avó não era macaca', afirmou ele, que nega o evolucionismo, segundo o qual o homem se originou dos macacos.
A lei que garante o ensino religioso, de autoria do ex-deputado Carlos Dias (PP), determina que a aula seja dada por autoridades religiosas. Cada coordenadoria regional é responsável pelo conteúdo das disciplinas que serão ensinadas aos alunos.
A Secretaria estadual de Educação garante que supervisionará os cursos. O plenário da Assembléia Legislativa chegou a aprovar projeto de lei do deputado Carlos Minc (PT), que previa que as aulas fossem dadas por professores de história. O projeto, no entanto, foi vetado pela governadora.
'Uma coisa é dar ao aluno o direito de conhecer a história, a ética e os valores da religião. Outra é doutrinar as crianças com dinheiro do contribuinte. Daqui a pouco vai ter criança queimando o livro de Darwin. É a volta à Idade Média', disse Minc.
O ex-deputado Carlos Dias, católico, lembra que o projeto foi debatido por dois anos e afirma não ver problemas no ensino do criacionismo. Dias argumenta que o ensino é opcional.
'Ele (o Minc) tem uma visão agnóstica e prega a paganização. O darwinismo é hoje derrotado no mundo', afirmou Dias.
O coordenador do Movimento Inter-Religioso (MIR), do Instituto de Estudos da Religião (Iser), André Porto, alerta para o risco de os alunos viverem, na escola, um conflito entre religião e ciência:
'A base do ensino é científica. Aprender o criacionismo na escola é diferente de aprender na igreja. Isso confunde o aluno: na aula de biologia ele aprende uma coisa e na de religião aprende outra.'
Rosinha e Garotinho defendem o criacionismo
Presbiterianos, Rosinha e o marido, o secretário de Segurança, Anthony Garotinho, defendem o criacionismo nas aulas dominicais que dão a casais na Igreja Presbiteriana Luz do Mundo, em Laranjeiras. Pastor da igreja, Eber Lenz afirma que existe uma perseguição ao casal por sua fé.
'O homem tem algo de Deus. Eu creio na existência concreta de Adão e Eva, como diz a Bíblia. Não considero anticientífico afirmar que a Humanidade se originou de um casal. Ninguém vê macacos de joelhos, orando', disse Lenz.
Adeptos do criacionismo criaram há 30 anos, no Brasil, a Sociedade Criacionista, que divulga o que considera evidências da veracidade da teoria. Descrente na evolução das espécies, Ruy Carlos de Camargo Vieira, presidente da sociedade, critica o ensino do evolucionismo nas escolas e considera a teoria darwinista ultrapassada.
'Os alunos aprendem, ou desaprendem, que a evolução das espécies é cientificamente comprovada. Isso é ensinado como verdade absoluta. Enquanto o criacionismo é sempre visto como algo mítico, disse Ruy Carlos.
O enclave do conservadorismo religioso
Não é inédita a posição conservadora do Norte do estado em relação à religião. A mesma região que decidiu adotar o ensino do criacionismo nas salas de aula presenciou, em 1969, um cisma entre a Arquidiocese de Campos e o Vaticano.
Quando o Concílio Vaticano II mudou a liturgia da missa, permitindo que as orações fossem rezadas na língua de cada país e que o padre falasse voltado para os fiéis, os católicos de Campos preferiram a liturgia anterior.
Adeptos da corrente tradicionalista, eles mantiveram a liturgia tridentina (criada após o Concílio de Trento, no século XVI), que determina sejam as missas realizadas em latim. Em 18 de janeiro de 2002, os tradicionalistas de Campos se reconciliaram com o Vaticano.
Nos EUA, o Sul, chamado de Cinturão da Bíblia, foi o berço do criacionismo. Em 1928, o estado do Arkansas aprovou lei que proibia ensinar 'a teoria ou doutrina que diz que a Humanidade ascendeu ou descendeu de uma ordem inferior de animais'.
(O Globo, 9/5)
Escrito por Rodrigo Farias às 20h39
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