Ambigüidades olímpico-sexuais
Ora, a condescendência politicamente correta faz mais uma vítima e me obriga a citar aqui uma entidade da qual jamais falei desde as redentoras provas teóricas de Educação Física no colégio. Uma instituição respeitável, convenho, mas que eu poderia muito bem ter passado a vida inteira sem mencionar. Mas é sempre bom manter uma mente aberta... -------------- Liberação de transexuais na Olimpíada é criticada por especialistas
Luciana de Oliveira Em São Paulo
Os grisalhos e conservadores senhores dos anéis olímpicos pareceram modernos e antenadíssimos quando anunciaram em Lausanne a liberação de transexuais nas Olimpíadas, no último dia 17 de maio. Passados alguns dias, a novidade se mostrou na verdade esdrúxula.
Dirigentes de confederação, médicos esportivos e até os próprios atletas transexuais se surpreenderam com a decisão do Comitê Olímpico Internacional de permitir, em cima da hora, pessoas que mudaram de sexo competirem já em Atenas-2004.
Apressada, política, fora de contexto, pouco científica, contraditória. Essas são algumas qualificações que a medida do COI recebeu do resto da comunidade esportiva.
A golfista Mianne Bagger (DIN) é um dos casos notórios de atletas transexuais "Deve ter outro caráter político, ético. É estranho que o COI abra uma exceção completamente oposta ao que sempre preconizou. Não faz sentido", diz o fisiologia Paulo Zogaib, da Escola Paulista de Medicina (EPM). "Antes consideravam mulher só aquela que tinha a carga genética feminina, os cromossomos XX. Faziam até exame de feminilidade para comprovar. Se uma mulher apresentasse alguma diferença, ela tinha que passar por reparações e terapia para ser liberada. Agora vão permitir que alguém com a carga XY - pois o transexual mantém sua carga genética - possa competir como mulher", critica o especialista em medicina esportiva.
O COI afirma que o transexual deve passar por cirurgia interna e externa, ter a nova identidade legalmente reconhecida e se submeter pelo menos por dois anos a terapia hormonal. A entidade esportiva, porém, não diz como vai controlar esse processo.
Concorda com Zogaib a ex-tenista Reneé Richards, que nasceu Richard Raskind, sofreu cirurgia nos anos 70, enfrentou uma batalha jurídica para entrar no circuito profissional e chegou às quartas-de-final do Aberto dos EUA. "É irônico que o COI venha tentando barrar os atletas que obtêm vantagens com doping e trapaças e agora apareça com uma decisão que desafia a Justiça da mesma forma. Afinal, a cirurgia de mudança de sexo é baseada na introdução de materiais no corpo."
O anúncio ganhou os noticiários em todo o mundo e desviou o assunto, que estava centrado nos escândalos de doping na equipe dos EUA e no temor a atentados na Grécia. "Temos atletas sujos por doping. Temos atletas assustados pelo terrorismo. E agora temos atletas transexuais", publicou em editorial o diário norte-americano "The Washington Times".
Já o jornal inglês "The Guardian" destacou como o anúncio foi vago e pouco claro. "Até agora não tínhamos nenhuma regra ou norma. Nós precisávamos estabelecer algum tipo de política", disse à publicação o diretor médico do COI , Patrick Schamasch, mostrando como o anúncio foi um começo vago sobre um assunto polêmico.
O COI sempre teve uma política de "união dos povos pelo esporte". Em Sydney-2000, uniu as Coréias (comunista e capitalista) na festa abertura e também promoveu uma delegação às pressas para Timor Leste. Com as denúncias de corrupção e suborno em torno da escolha de Salt Lake City para as Olimpíadas de Inverno de 2002, essa aura de "bom-mocismo" caiu por terra e os dirigentes entraram na alça de mira.
Presidente do COI, Jacques Rogge tem a missão de melhorar a imagem da entidade Jacques Rogge substituiu Juan Antonio Samaranch com a missão de limpar a barra do COI. A principal política até agora tem sido a "caça às bruxas" aos dopados, trocando os dirigentes pelos atletas como alvo das críticas.
Nesse contexto, o caso dos transexuais parece mais uma peça de marketing para mostrar como a entidade esportiva é moderna e politicamente correta. O COI falou em respeito aos direitos humanos e "abertura de portas".
Não mencionou quantos atletas seriam beneficiados com a medida, apenas citou genericamente que o número de cirurgias de mudança de sexo tem crescido nos últimos anos. Quis se adiantar a possível cenário futuro com dezenas de casos desse tipo.
Na atualidade, há no mundo só dois casos notórios, mas nenhum na esfera olímpica: uma golfista (esporte que está fora dos Jogos) e uma ciclista da modalidade downhill (descida de montanha, que também não é olímpica).
Os dirigentes de confederação estranharam o assunto entrar em pauta e se mostraram despreparados diante da reportagem do UOL Esporte. "É uma decisão complexa. Não tenho conhecimento suficiente para analisar, o direito de competição desses atletas deve ser analisados por conhecedores em fisiologia", afirmou Antonio Vasconcelos, vice-presidente da Confederação Brasileira de Ciclismo. "Sou de outra geração. Antes tenho que pensar em valores morais", declarou Roberto Gesta, presidente da Confederação Brasileira de Atletismo.
Outro pego de surpresa é Ney Wilson Silva, coordenador técnico da CBJ (Confederação Brasileira de Judô). "Teríamos que fazer uma reunião para discutir, seriam necessários fatos concretos para sabermos como lidar com isso. Até hoje, em três anos que ocupo este cargo, nunca ouvi falar de um caso de transexual no judô."
O judô enfrentou em 1996 a polêmica em torno de Edinanci Silva. O vôlei entrou no tema em 1997 com Érika Coimbra. Os casos, porém, estão distantes do transexualismo. Elas nasceram mulheres, mas tiveram a sexualidade contestada porque apresentavam características de ambos os sexos, excesso de hormônio masculino e precisaram passar por cirurgias reparadoras para competirem como mulheres.
"São casos diferentes. O intersexual, também chamado de pseudohermafrotida, teve uma deficiência hormonal, por isso apresenta características sexuais ambíguas. Já o transexual tem uma atividade hormonal normal, mas psicologicamente se identifica com o outro sexo", explica a endocrinologista Elaine Frade Costa, do Ambulatório Transexual do Hospital das Clínicas.
(Extraído do site UOL Esportes, 27/5/2004.)
Escrito por Rodrigo Farias às 13h26
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