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A Solidão, essa incompreendida
Já que o último dia 12 foi consagrado ao amor e à busca de companhia (para alguns, talvez à busca deseperada), eis algumas opiniões a respeito daquela condição tão temida nesta época, e, diria eu, tão mal compreendida também.
"Se existe uma solidão em que o solitário é um abandonado, existe outra onde ele é solitário porque os homens ainda não se juntaram a ele." "O Triângulo Negro", André Malraux
"Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante horas, é a isso que é preciso chegar. Estar só, como a criança está só." "Carta a um Poeta", de Rainer M. Rilke
"Quem não souber povoar a sua solidão, também não conseguirá isolar-se entre a gente." Baudelaire
"Descansa do som no silêncio, e do silêncio digna-te tornar ao som. Sozinho, se souberes estar só, deixa-te ir por vezes até à multidão." "Estelas", Victor Segalen
"Não há dois tempos iguais de solidão porque nunca se está só da mesma maneira." "Malicroix", Henri Bosco
"A solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo." "Pobre Coração dos Homens", Soseki Natsume.
Fonte: http://www.citador.pt/
Escrito por Rodrigo Farias às 11h27
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Taxando livros...
É uma grande lástima que se tenha aprovado a cobranças de impostos sobre livros importados. Até onde entendi, trata-se dos livros obtidos mediante importadoras, o que exclui os encomendados de fora via Internet. De qualquer maneira, é uma medida estúpida, cobrar imposto sobre o aperfeiçoamento intelectual dos cidadãos, que nada mais é que o aperfeiçoamento do próprio Brasil. Parece que, nas altas esferas, "democracia" é nivelar tudo por baixo.
Um colega do Fórum Federalista comenta o assunto. Nada tenho a acrescentar a respeito, a não ser que mais uma vez me decepciono com a classe política brasileira. Novamente ela se mostra, mais do que maldosa, estúpida. Já bem posso imaginar os argumentos de "justiça social" com que o parvo autor dessa idéia deve tê-la justificado. Somos um caso exemplar da metáfora cristã de "cegos guiando cegos", rumando, tropeço após tropeço, para um abismo.
Tristes tempos em que a consciência cívica se reduz a passeatas pedindo "paz" a bandidos que não sabem o que isso significa, a governantes que brincam de estadismo e, agora, a taxar conhecimento como se fosse um privilégio imerecido, sob o aplauso de bordões vazios.
O texto a que me referi é este: http://plural.motime.com/1086129081#285018.
Escrito por Rodrigo Farias às 10h38
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Dia dos Namorados
Doze de junho e, como diz a música, "love is in the air". Coraçõezinhos, flores e casais apaixonados se espalham em encartes e outdoors por toda parte, em celebração ao mais exaltado dos sentimentos humanos. Solitários inconformados choram sua condição, ou tentam esquecê-la em programas agitados nos quais farão o possível e um pouco mais para terem companhia nesse dia. Dos 365 dias do ano, este dia doze parece o único em que ter um par soa como obrigação. Tragicômica demonstração da banalização de valores em que nos afundamos a cada dia: ter a vida sentimental refém de uma data que, se foi tradicional um dia, hoje é mais lembrada pela avalanche publicitária que a assinala.
Não que não haja um encanto em haver um "Dia dos Namorados". É bom trocar presentes com uma pessoa querida, dedicar-lhe linhas carinhosas (mesmo que desajeitadas), fazer-lhe uma surpresa ou, simplesmente, abrir um espaço na agenda para vê-la de súbito. Coisas assim. Entretanto, sua institucionalização soa estranha, algo forçada, o que se torna ainda mais óbvio ao se ver a bizarra preocupação que certas pessoas têm com o não estarem sozinhas nesse dia. É como se a solidão fosse sinal de fracasso ou derrota. Uma generalização perigosa, sobretudo em um tempo em que ficamos mais individualistas e, cada vez mais, sozinhos, tendo ou não um par.
Falando em amores, uma matéria adequada ao espírito do dia:
Extraído de http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/story/2004/06/040614_amorml.shtml.
O amor é mesmo cego, dizem cientistas britânicos
Cientistas britânicos estão tentando provar que existe um grau de verdade no antigo ditado "O amor é cego".
Pesquisadores da University College London (UCL) descobriram que os sentimentos amorosos levam à supressão da atividade em áreas do cérebro que controlam o pensamento crítico.
Aparentemente, uma vez que nos aproximamos de alguém, o cérebro reduz a necessidade de julgar o seu caráter, sua personalidade e suas emoções negativas.
O estudo, publicado na revista NeuroImage, descobriu que tanto o amor romântico quando o amor materno produzem o mesmo efeito sobre o cérebro.
Preservação
A equipe da UCL mapeou os cérebros de 20 jovens mães enquanto mostravam a elas fotos de seus filhos, dos amigos de seus filhos e de seus amigos adultos.
Segundo os cientistas, os padrões de atividade cerebral eram muito semelhantes aos identificados com um estudo anterior sobre os efeitos do amor romântico.
Ambas as pesquisas registraram uma maior atividade no chamado "sistema de gratificação" do cérebro. Quando essas áreas são estimuladas, elas produzem sentimentos de euforia.
Segundo o chefe da equipe de cientistas, Andreas Bartels, é fundamental que tanto o amor romântico como o amor maternal funcionem no cérebro de uma maneira altamente positiva, já que ambos são cruciais para a preservação das espécies.
"As relações humanas empregam um mecanismo atrativo que supera a distância social ao desativar as redes cerebrais usadas por emoções negativas e preconceitos", disse Bartels. "Esse mecanismo une os indivíduos ao ativar o sistema de gratificação, explicando, assim, o poder de motivação do amor."
A pesquisa detectou apenas uma diferença entre a resposta do cérebro ao amor romântico e ao amor materno: somente o primeiro aumenta a atividade no hipotálamo, região que controla o desejo sexual.
Escrito por Rodrigo Farias às 23h39
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Vazio
Sentar diante do monitor e... nada. Nenhum incômodo a se traduzir num jorro de palavras, nenhuma carga de sentimento esperando para se derramar em letras, metáforas e lembranças veladas sob o HTML. Apenas o vazio. O fluxo de pensamentos, tão familiar, não veio hoje, represado em algum canto obscuro do subconsciente. As idéias para um tema, surgidas nas brechas mais insólitas do cotidiano, jazem natimortas, inanes de entusiasmo criador. Por quê? De olhos fechados, em silêncio, um breve exame interior traz a resposta: não há falta. Não se sente nem dor de abandono nem angústia de carência; nenhum impacto de sentimento repercute pelas câmaras silenciosas do coração. Nenhuma tensão interna a pôr o cérebro a fervilhar. Será felicidade? Dizem que a felicidade mata a inspiração, e que os grandes artistas só o são à custa de algum sofrimento. Mas, se isto é felicidade, é vazia... Onde o enlevo e o excesso de energia, o impulso de louvar as mínimas coisas e sorrir sem motivo para um renovado mundo de sempre? Não, não é isso. As coisas permanecem como antes, com as mesmas cores, e sua beleza ou feiúra ainda se faz sentir. Sem transcendência, porém. O mundo inteiro ainda em seu lugar, agora desprovido de qualquer apelo especial. A razão dá o diagnóstico: tédio. A memória pede um aparte e retruca que o tédio perturba, incomoda, tem gosto de doença. Não é o caso. O pior tédio ainda é alguma coisa ativa. Este vazio, por sua vez, não é assim. Ele não traz a amargura de uma rotina constrangedora, o senso de aleijão de potenciais implícito a monotonia. Não... Ele apenas não é. A imaginação amortecida recorda o limbo descrito pelos velhos dogmas, espaço sem nome esquecido a meio-caminho entre o céu e o inferno. E então a perspectiva dos infantes sem batismo a ele destinados parece quase palpável: perdidos entre a suprema realização e o mais abjeto sofrimento, numa eternidade desprovida de emoções, sem exaltação nem dor. Uma existência em perene meio-tom, cinza... Um último esforço tenta resgatar a criatividade comatosa. Em vão. Nenhuma fagulha mental lampeja pela consciência. Preso nesse estranho nirvana involuntário, só resta esquecer e dormir.
Escrito por Rodrigo Farias às 00h04
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Rebaixamento no Orkut
Baixaram minha cotação no Orkut. Eu tinha cinco ícones de confiabilidade ( ), agora só tenho quatro. Puxa, eu sequer briguei com alguém! O máximo de "incorreção" política nos últimos tempos foi buscar uma explicação plausível e não-conspiratória para o destaque dado aos abusos contra prisioneiros iraquianos por militares dos EUA, numa lista, e divulgar críticas a Ronald Reagan, em outra. Isso me torna menos confiável? Tentar manter a lucidez em fóruns de forte carga ideológica dá nisso... Oh, que lástima...
Falemos de coisas realmente importantes. Para quem não sabe do que se trata, segue abaixo uma matéria que explica tudo. Mas vale advertir desde já: só se entra no Orkut mediante convite. A idéia é estabelecer redes sociais, na linha da idéia de que só há seis níveis de separação entre quaisquer pessoas na face da Terra, ou seja, de que entre mim e Saddam, Bush e Bin Laden só há seis pessoas, sendo a primeira delas um conhecido meu (poderiam ser 6000, eu me sentiria mais confortável). Mas fique tranqüilo(a), que, do jeito que a coisa cresce, você logo receberá o seu.
"Depois da febre dos blogs e fotologs, a nova onda que conquista descolados na Internet é o Orkut (orkut.com), um serviço de comunidade de internautas ligados por meio de uma rede semelhante ao Friendster (frienster.com), só que com a tecnologia do Google por trás.
A ferramenta desenvolvida pelo engenheiro de software Orkut Buyukkokten surgiu no final de janeiro de 2004 e hoje reúne mais de 2 milhões de usuários registrados. Segundo definição deles mesmos, "o principal objetivo do Orkut é tornar a sua vida social —e a de seus amigos— mais ativa e estimulante".
A graça além de reunir virtualmente amigos é entrar em contato com amigos de amigos, possíveis pretendentes, contatos de trabalho e participar das comunidades de discussão de assuntos variados, como música, sexo, personalidades, festas etc. Tem de tudo.
"Descobri com um amigo meu, meio nerd, meio geek, achei bom e comecei a espalhar convidando pessoas", conta o DJ Luca Lauri, que utiliza o serviço de comunidades de discussão para conhecer pessoas com interesses semelhantes.
Para se tornar um membro do Orkut, só sendo convidado. Pelo menos por enquanto, já que os desenvolvedores do serviço prometem liberar o auto-cadastro dentro de algumas semanas. Já existe até um comércio de convites para o Orkut em sites, como e.Bay em que eles podem custar até US$ 10.
Uma vez convidado, você preenche um cadastro com diversas opções de características que vão dos básicos nome e idade a profissão, preferências de filmes, livros, culinárias, de tipos físicos, humor etc. O melhor é que você não é obrigado a detalhar, se você não quiser ou não tiver paciência.
Feito o cadastro inicial a coisa funciona como uma pirâmide. Dá para checar a lista de amigos dos seus conhecidos para encontrar as pessoas ou então usar o mecanismo de busca —por interesses, nome, região... Depois de convidar e incluir pessoas na sua lista você pode fazer um ranking de amigos (ao qual apenas você tem acesso), em que você "classifica" melhores amigos, desconhecidos, etc e pode atribuir pontuação (estrelinhas e coraçõezinhos) ao quanto você acha que uma pessoa da sua lista é "de confiança", cool e sexy, por exemplo.
O DJ e promoter Bispo é outro adepto do Orkut, que inclui ainda famosos que vão do co-fundador da Apple Steve Wozniak à personalidade carioca Bruno Chateaubriand. Ler os perfis é uma diversão à parte. "Uso ele desde a diversão até para trabalho", conta Bispo.
Outros recursos que o Orkut oferece são álbum de fotos, horóscopo, lembrar aniversários. Um das soluções engraçadas que eles oferecem é a "hot-list" e a "crush-list" em que você pode incluir pessoas —conhecidas ou não— em que você esteja de olho. Os nomes ficam em segredo e só são revelados se o interesse for recíproco. A possibilidade de levar um fora é quase zero.
O Brasil está em segundo lugar no ranking de usuários do Orkut com 12,49% do total de cadastrados no serviço. Em primeiro lugar estão os EUA, com 45,2% dos usuários, e na terceira posição está o Japão, com 6,15% dos cadastrados no site.
"No começo entrei em várias comunidades, fui encontrando amigos e depois percebi que podia usar isso para fazer divulgação do meu trabalho também", diz Bispo. O DJ e produtor Luca Lauri vai além. "Acho que o Orkut é meio que o futuro do Oulook", conclui.
Entre as outras estatísticas em relação aos membros do Orkut estão as idades, status (casados, solteiros etc) e interesses (amizade, trabalho, parceiros, encontros). De acordo com as informações 41,6% das pessoas têm entre 18 e 25 anos e outros 23,51%, declaram ter entre 26 e 30 anos. Os dados são atualizados diariamente e estão disponíveis no orkut.com."
Fonte: http://erikapalomino.uol.com.br
Escrito por Rodrigo Farias às 11h27
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O Reino dos Céus é aqui...
O maior expert em negociação com presos rebelados nos presídios do Rio, quem diria, é um pastor evangélico. Agora que o governo do Estado também é guiado por Jesus, e as rebeliões também se resolve pela graça divina, por que não extinguir a polícia e trocar seus velhos revólveres e sua parca munição por Bíblias de capa de couro, lindamente encadernadas? Não sei como ainda não pensaram nisso antes. Agora que sabemos que os grandes chefões das facções do tráfico carioca são todos "libertos" da influência demoníaca, exorcizados em massa que têm sido, é óbvio que a melhor arma não é a polícia nem a política; é o versículo!
Folha de S. Paulo, 06 de junho de 2004: "A cocaína é o Demônio ralado, a cerveja é a Pombajira em líquido"
ELVIRA LOBATO DA SUCURSAL DO RIO
O pastor Marcos Pereira da Silva, 47, presidente da Assembléia de Deus dos Últimos Dias, gaba-se de ter não apenas acesso aos mais perigosos traficantes de drogas do Rio como o respeito da liderança do Comando Vermelho, em que estão Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, e Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco. Silva afirma ainda ter conseguido a conversão religiosa de traficantes do Terceiro Comando, facção inimiga do CV, entre os quais cita Alberico Azevedo de Medeiros, o Derico, que dirige, em liberdade, o tráfico na favela do Acari. O pastor diz que toca o coração dos bandidos ao dizer que foi o Diabo que os levou a cometer os crimes e que podem mudar de vida se aceitarem Cristo. Para ele, o Demônio é responsável por todos os desvios de conduta do ser humano, do adultério e alcoolismo a assassinatos, roubos, estupros, tortura, tráfico e corrupção. "A cocaína é o Demônio ralado. A cerveja é a Pombajira [entidade cultuada pelas religiões afro-brasileiras, companheira de Exu] em líquido. Fumei até os 33 anos, mas era o diabo que fumava pela minha boca. Consigo conscientizá-los [os traficantes] quando mostro que até o desejo desordenado da carne é coisa do Demônio." Antes de se tornar pastor, Pereira foi garçom e maître em casas noturnas da zona sul do Rio. Filho de motorista de caminhão, circula em um Land Rover, segundo ele doado por ""amigos", mas continua morando no mesmo quarteirão pobre onde nasceu, no Jardim do Éden, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. A intervenção que pôs fim à rebelião na Casa de Custódia deu notoriedade ao pastor, que passou os últimos dias ocupado em dar entrevistas. Na quinta-feira, ele recebeu a reportagem da Folha. Abaixo, os principais trechos da conversa.
Folha - O sr. diz nos cultos que fumou maconha, que bebia e que até levou um tiro na perna em uma briga antes de se tornar pastor. O que o fez mudar de vida? Marcos Pereira da Silva - Em 1989, o Diabo apareceu para mim duas vezes, em minha casa e dentro do ônibus, quando eu ia para o trabalho. Um garçom evangélico que trabalhava comigo rezou, e o Diabo se foi. Entrei em uma igreja da Assembléia de Deus e encontrei a paz. Até então, eu achava os crentes cafonas, chatos e feios.
Folha - Por que as mulheres em sua igreja se vestem com túnica larga até os pés, sem maquiagem e sem qualquer adereço que destaque a feminilidade? Pereira - Eu sigo a doutrina bíblica ao pé da letra. Nosso corpo é o templo do Espírito Santo, e o corpo da mulher é para o marido. Elas não são obrigadas a vestir a túnica, mas vestem por opção. Sou mais exigente do que outras denominações evangélicas porque quero que Deus opere. Quero curas. Ver o paralítico andar, arrancar a arma do traficante, a cocaína do bandido. Somos peregrinos, acreditamos na vinda de Jesus, nos dons espirituais.
Folha - Os fiéis de sua igreja não podem usar preto nem vermelho, não podem ver TV, não comem carne de porco. Por quê? Pereira - O vermelho é dominado pela Pombajira. No preto habitam as trevas. Não comemos carne de porco por ser um animal sujo. A TV é maléfica. As novelas são mentiras, e não precisamos de mentiras. Se você tira a TV, pode ver os anjos, os arcanjos, os querubins e a glória de Deus.
Folha - O sr. usa um Land Rover e há dois carros com o nome da igreja no pátio. Ficou rico? Pereira - Cerca de 80 pessoas moram comigo e com a minha família no prédio da igreja, mas umas 200 almoçam aqui todos os dias. Temos um gasto mensal de R$ 50 mil. Vivemos das doações, dos CDs de música gospel e da venda de doces em compota, que os irmãos oferecem de porta em porta nas favelas. Todo o dinheiro que entra é gasto na igreja. Mas recebo muitos presentes. Todo ano ganho um carro no meu aniversário. Ganho ternos, relógios e telefones celulares.
Folha - Quem dá esses presentes? Pereira - Tenho muitos amigos. Mais de 10 mil pessoas vêm aos meus aniversários, e elas querem me dar presentes.
Folha - O sr. já esteve com Fernandinho Beira-Mar? O que acha dele? Pereira - Estive com ele no presídio Bangu 1. Orei por ele, e ele caiu endemoniado no chão. Legiões de demônios foram expulsos das galerias daquele presídio. O Fernando era motorista de caminhão, ficou desempregado, sem condição de sobrevivência. Começou a fazer amizades e a trabalhar com pessoas que traficavam. Os que estavam acima dele morreram, e ele ficou dono do movimento, passou a fazer coisas terríveis por falta de cultura, de religião e de trabalho. Foi marginalizado pela mídia, que diz muitas inverdades sobre ele. É um homem manso e está maravilhado com a igreja. Jesus liberta qualquer traficante. Folha - Que outros criminosos o sr. conheceu? Pereira - Estive com o Ernaldo Pires de Medeiros, o Uê, pouco antes de ele ser morto em Bangu 1 [Uê foi assassinado em setembro de 2002, durante motim liderado por Beira-Mar]. Estive várias vezes com Elias Maluco, tanto na rua quanto na cadeia.
Escrito por Rodrigo Farias às 10h02
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Folha - Ele lhe contou por que matou o jornalista Tim Lopes? Pereira - O Elias Maluco não matou o Tim Lopes. Foram pessoas do comando dele, mas ele não estava na ação.
Então, para o senhor, os traficantes são pessoas boas? Pereira - O que habita no homem é que faz o homem ser mau. A cocaína é o Diabo ralado, a cerveja é a Pombajira em líquido. Fumei até os 33 anos. Era o diabo que fumava pela minha boca. Consigo conscientizá-los de que até o desejo desordenado da carne é o Demônio.
Folha - Sua contribuição para o fim da rebelião na Casa de Custódia de Benfica lhe deu grande notoriedade. Quais são suas pretensões daqui para frente? Pretende fazer carreira política? Pereira - Sou contra qualquer crente ter cargo político, mas apoio todos os políticos, porque a autoridade, mesmo não sendo evangélica, é instituída por Deus. Os políticos não podem cumprir os compromissos que assumem sem recursos. A mentira começa por aí, e a mentira não é de Deus. Minha meta é continuar fazendo a obra de Deus. Não tenho pretensões monetárias de formar riqueza. Sendo conhecido ou não, meu objetivo é só pregar.
Folha - Seu trânsito entre traficantes despertou suspeitas de que a igreja seja usada para lavagem de dinheiro do tráfico de drogas. Pereira - Há especulações acerca disso, mas não me envolvo com o dinheiro do tráfico. As polícias Militar e Civil já fizeram incursões aqui e nada acharam. É natural que pensem que sou do tráfico porque entro nas favelas e nos presídios. O correto é que façam levantamento da minha vida. Não sou contra isso, nem me assusto, porque nunca peguei uma moeda de traficantes. Se eu recebesse dinheiro de Marcinho VP, nunca poderia entrar na favela do Acari, que é área do Derico.
Folha - Como o sr. se comunica com eles? Pereira - Eu mando que eles deixem a boca-de-fumo, o cigarro, a maconha, a cocaína, para ficar com cara de homem. O verdadeiro macho não é o que dá tiro, nem o que é traficante. O que faz a vontade de Deus é o macho. Não critico o traficante. Vou até ele para arrancá-lo das trevas.
Folha - Mesmo tendo sido chamado para intermediar a rendição de presos rebelados, o que só confirma a falência da política de segurança do Estado, o sr. se desdobra em elogios à governadora Rosinha Matheus e ao marido dela, o secretário de Segurança, Anthony Garotinho. Por que isso? Pereira - Porque as autoridades são constituição divina. A Bíblia fala que quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus. Se ele está sendo mau governante ou não, quem o colocou lá foi Deus, e quem sou eu para lutar contra as ordens de Deus? No mundo, rege o maligno. Não adianta reformar a polícia, trocar de governo, fazer reuniões internacionais. O mundo terá que se render a Cristo.
Folha - Então o sr. é contra qualquer contestação dentro ou fora dos presídios? Pereira - Sou contra baderna. Deus é que tem o poder de julgar, absolver, derrubar e levantar.
Folha - O mesmo vale para sua relação com os bandidos presos? Pereira - Não mexo com os traficantes e com os estupradores. Meu objetivo é resgatá-los.
Folha - Mas isso não elimina o tráfico. Se um traficante sai, outro toma o lugar dele. Pereira - É natural. Jesus fala que o ímpio brota como água.
Escrito por Rodrigo Farias às 09h58
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A natureza da guerra
Guerra justa. A confusão no Iraque trouxe de volta um conceito que já este muito em voga na Idade Média e nos princípios da Idade Moderna. No Brasil, por exemplo, chamava-se de guerra justa aos conflitos de aniquilação e escravização de "bárbaros" (índios) que rejeitassem a catequese e a autoridade dos europeus. Hoje, a expressão é trazida de volta à luz para analisar a legitimidade das aventuras militares norte-americanas, justificadas por seus apologistas pela defesa de valores universais como liberdade e democracia. Afinal, para invadir o Iraque, Mr. Bush et caterva tiveram de apresentar justificativas não só aos próprios americanos, como também ao resto do mundo. Se é verdade que elas visavam à conquista de apoio internacional, também é que essa mera preocupação, além da natureza dos pretextos usados, indica que já estamos em tempos melhores quanto aos escrúpulos para ir à guerra do que, digamos, no século XIX ou mesmo nos anos de 1930. Ao menos hoje em dia ninguém mais fala em "glória" e "direito de raça" como bons motivos para arriscar a vida de seus compatriotas; fala-se em exportar implantar democracias, estabelecer a igualdade e o Estado laico de direito, libertar as mulheres, destronar ditadores genocidas. Justificativas que, em princípio, são muito mais nobres e digeríveis do que as alegações de algumas décadas atrás, pelo menos quanto aos regimes ocidentais.
À parte a sinceridade da iniciativa americana ou a validade de seus pretextos, pode-se perguntar se as pessoas que apóiam a guerra têm realmente uma idéia do seu preço, ou da própria natureza do ato de guerrear. Quantas baixas militares são um custo humano válido? Quantas baixas civis? Quem estabelece o limite entre um custo aceitável e um inaceitável? Mais do que isso: dada a natureza extrema da guerra, que atos e comportamentos são legítimos? A divulgação das sessões de humilhação e tortura psicológica na prisão de Abu Ghraib chocaram o mundo, mas a maior parte dos comentaristas preferiu discutir a responsablidade da alta cúpula do governo do que um outro aspecto que me parece mais relevante. Ora, é realista ir a uma guerra num território estranho e achar que coisas como aquelas não irão acontecer? Existe mesmo uma diferença entre o homem ou mulher que combate e o que "aperta" prisioneiros visando a extrair informações?
Nesta breve entrevista, um conhecido monge budista, nascido no Vietnã, trata do assunto. E sugere que a natureza da guerra é tal, que mesmo a mais justa delas ainda trará um fardo imenso de injustiça.
This Is What War Looks Like The abuse at Abu Ghraib prison is what happens when we abandon compassion and allow our animal nature to take over.
Interview with Thich Nhat Hanh
Buddhist monk Thich Nhat Hanh (pronounced Tick-Not-Han) has been a spokesperson for peace and human rights since the 1960s, when his activism to end the Vietnam War inspired Martin Luther King Jr. to nominate him for the Nobel Peace Prize. He has been living in exile from his native Vietnam since 1966, and calls Plum Village, a meditation retreat center he founded in the south of France, his home. He conducts retreats throughout the world on "engaged Buddhism," nonviolence, and mindfulness, and has written more than 100 books. In an email interview with Beliefnet, he offered his thoughts on the prison abuse scandal.
What is the Buddhist perspective on the abuse of prisoners of war in Iraq?
Recent news about the abuse of prisoners of war provides us with the opportunity to look deeply into the nature of war. This is an opportunity for us to be more aware. This is not new; everywhere there is war, these kinds of things happen.
Every one of us should know the way soldiers are trained in order to see the truth about war. Soldiers are trained to kill as many people as possible and as quickly as possible. Soldiers are told that if they don’t kill, they will be killed by the so-called “enemy.” They are taught that killing is good because the people they are trying to kill are dangerous to society.
Soldiers are trained to believe they must kill the other group because they are not human beings. If soldiers see their “enemies” as fellow human beings just like them, they would have no courage to kill them.
It is important not to blame and single out the U.S. in this kind of situation because any country would do the same thing under the same conditions. During the Vietnam War atrocities were committed by both sides.
The statement President Bush made that the U.S. just sent dedicated, devoted young men, not abusers to Iraq shocked me. Because committing acts of torture is just the result of the training that the soldiers have already undergone. The training already makes them lose all their humanity. The young men going to Iraq were already full of fear, wanting to protect themselves at all cost, being ready to kill at any moment.
In this state you can become extremely cruel. You may pour all of your hate and anger on prisoners of war by torturing and abusing them. The purpose of your violence is not only to extract information from them, but also to express your hate and fear. The prisoners of war are the victims, but the abusers, the torturers are also the victims. Their actions will continue to disturb them long after the abuse has ended.
Preparing for war and fighting a war means allowing our human nature to die and the animal nature in us to take over. We should never be tempted to resort to violence and war to solve conflict. Violence always leads to more violence.
There have been examples of individuals who were kind to prisoners. Assuming they have the same training and are operating in the same difficult conditions, what makes some people compassionate and others abusive? Some people are able to remain compassionate because they are lucky to have received a spiritual heritage, kindness and goodness, that stayed at least partially intact despite their training. This heritage is transmitted by parents, teachers, and community. Their humanity is preserved to some extent even if they have been damaged during their training. So they are still able to be shocked by their fellow soldiers' acts of torture. But those with a poorer spiritual heritage, who come from a family or community without much understanding and compassion, lose all their humanity in the process of military training.
Is it ever possible to torture someone for a good cause? If a prisoner in custody did have information that could potentially prevent a terrorist attack, would coercion be appropriate? If no, what interrogation tactics would be appropriate and effective? There is no ‘good cause’ for torture. As a torturer, you are the first to be a victim because you lose all your humanity. You do harm to yourself in the act of harming another. If you had a good cause to begin with, it is lost when you torture another human being. When we imagine situations when torture could be justified, we jump to conclusions too quickly and too easily. Torturing someone will not always give us the result we wish for. If the prisoner in custody does not tell us the information we want it is because they don’t want their people, their fellow soldiers to be killed. They withhold information out of compassion, out of faithfulness to their cause. Sometimes they give out wrong information. And there are those who prefer to die rather than give in to the torture.
Escrito por Rodrigo Farias às 16h25
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I am absolutely against torture. It is very easy to create a pretext for why it is necessary to torture a prisoner when we have fear and anger in us. When we have compassion, we can always find another way. When you torture a living being, you die as a human being because the other person’s suffering is your own suffering. When you perform surgery on someone, you know the surgery will help him and that is why you can cut into his body. But when you cut into someone’s body and mind to get information from them, you cut into your own life, you kill yourself as a person.
If military action is incompatible with mindfulness and compassion, how should people/nations defend themselves? (You have said that when we are mindful, “compassion becomes possible.” Is a lack of mindfulness what our moral failings boil down to?) There are many ways to defend ourselves: through diplomatic foreign policy, forming alliances with other countries, humanitarian assistance. These are all approaches motivated by the wisdom of inter-being, not just by political gain. In these kinds of approaches to resolving conflict, the army doesn’t have to do much. They can serve the people, build bridges, roads, etc. This is not idealistic thinking, armies have worked this way in the past. With good foreign policy, the army will not have to fight.
The only really necessary and appropriate circumstance under which an army should resort to violence is to defend itself or an ally from invasion. And even in this case, much suffering will result.
What is upsetting to me is that former generations have committed the same mistakes and we don’t learn from them. We haven’t learned enough from the war in Vietnam. There were so many atrocities committed there. So many innocent people were tortured and killed by both sides because they were perceived to be ‘communist’, or ‘anti-communist.’
Mindfulness has so many layers. When we kill because we think that the other person is evil, that we are killing for the sake of peace, that we are doing a good thing, this is not right mindfulness. If we are mindful, we will see not only the present situation, but also the root and the consequence of our act in that moment. Other insights should arise if we are truly mindful: “This person I want to kill is a living being. Is there any chance for him to behave better and change his present, harmful state of mind? Maybe I have a wrong perception and one day I will see that he is just a victim of misunderstanding, and not really the evil person I think he is.” Mindfulness also helps a soldier to see that he or she may just be an instrument for killing used by his or her government.
A general who is mindful of his actions is capable of looking deeply. He may not need to use weapons. He will see that there are many ways to deter the opposite side and he will exhaust all other means before resorting to violence. And when nothing else works, he may use violence, but out of compassion, not out of anger.
There is a collective sense of shame among many Americans about the activities depicted in these photos. Buddhists believe individuals are responsible for their actions through karma, but is there any such thing as collective karma? At a national level? An act of cruelty is born of many conditions coming together, without any separate, individual actor. When we hold retreats for war veterans I tell them they are the flame at the tip of the candle, they are the ones who feel the heat, but the whole candle is burning, not only the flame. All of us are responsible.
The very ideas of terrorism and imagined weapons of mass destruction are already collective karma in terms of thinking and speaking. The media helped the war happen by supporting these ideas through speech and writing. Thought, speech and action are all collective karma.
No one can say they are not responsible for this current situation even if we oppose our country’s actions. We are still a member of our community, a citizen of our country. Maybe we have not done enough. We must ally ourselves with bodhisattvas, great, awakened beings, around us to transform our way of thinking and that of our society. Because wrong thinking is at the base of our present situation, thinking that has no wisdom or compassion. And we can do things every day, in every moment of our daily life to nourish the seeds of peace, compassion and understanding in us and in those around us. We can live in such a way that can heal our collective karma and ensure that these atrocities will not happen again in the future.
What is the chief lesson for us to learn from these terrible events? Don’t be tempted to use the army to solve conflicts. The only situation in which we use the army is to defend our country during an invasion. In the past, the U.S. was loved by many of us in the world because the U.S. represented freedom, democracy, peace, and care for other countries. The U.S. has lost this image and must rebuild it.
In the past, when I would go to the U.S. embassy for a visa, it was not heavily guarded. But now, all over the world, U.S. embassies are surrounded by heavily armed guards. Fear has overtaken the U.S. It is the primary motivation for many of the U.S. government’s actions because we do not know how to protect ourselves with compassion. Students of political science must learn this in university so that they can bring real wisdom into politics. Compassion can go together with intelligence. Compassion is not stupid. Love is the same, real love is born from understanding.
Escrito por Rodrigo Farias às 16h24
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