Divagações
   A burrice vai conquistar o mundo

A burrice vai conquistar o mundo. Seja em prosa ou em verso. Ela está por toda parte: à esquerda bisonha, à direita histérica, ao centro indeciso... E no Setentrião arrogante e no Meio-Dia dos famintos, no Levante dos fanáticos e no Poente dos niilistas. Por toda a parte, a burrice, santa burrice, vela por nós. Para ela não há ideologia nem cor, nem bandeira nem limite, pois ela herdará o mundo... A toda hora a burrice se alastra como vendaval pelo campo e pela cidade, vomitando a si mesma sem nada sorver. Afoga-nos com a auto-suficiência, humilha-nos com a incapacidade, corrompe com a miopia de fracos e fortes, eterno sorvedouro de egos inflados de vazio e enfastiados do nada de todo dia.

 

A burrice, senhores, entranhou-se nos sábios, alagou os corredores das universidades, multiplica-se nos laboratórios. Vemo-la jorrar nos discursos e brotar dos manuais, sistematizar-se nos seminários e grudar nas mentes juvenis. Seja nos doutores ou nos analfabetos, ela desconhece títulos, ignora diplomas, avança sobre todas as cátedras e todos os cursos. A burrice leciona, e só leciona, pois, burra desde nascida, nada tem a aprender além do que já sabe. É mestra da vida e da morte, plena de lições e morais, equações não deduzidas e sistemas infalíveis, o burro silogismo de mentes poderosas em ignorância e cultivadas em estupidez.

 

A burrice é cega, mas tudo vê. É surda, mas fala muito. Diz-se pura, mas acusa toda impureza.  Misericordiosa, sempre carinhosa com o imperdoável, e implacável com o desimportante; gentil no corretivo, e amarga na afeição. Sabe tudo de todos, pois em todos só vê ela mesma — e o que há de pior do que ela mesma, escondida sob tantas ilusões?  “O mundo”, responde a burrice, santa burrice, com o olhar penetrante dos rasos, a tudo enxergar menos o próprio reflexo.

 

Encastelada nos palácios, gemendo nos pardieiros, bradando dos púlpitos e zombando nos bares, a burrice, santa burrice, é a união dos povos, a verdadeira democrata. No seu trono sentam os governantes de todos os partidos, sob sua tribuna aclama a horda imensa de seus súditos e eleitores, extasiados de soluções milagrosas e favores a pedir, “jeitinhos” a dar e sacros princípios — princípios! — a defender com a vida alheia. Pois a burrice, santa burrice, é alfa e ômega, o princípio e, principalmente, o fim.

 

Viva a burrice, santa burrice, argúcia dos idiotas, genialidade dos medíocres. Ela tudo devora, tudo amortece, e tudo regurgita para seus filhos sedentos de respostas, exaustos de autonomia. Abaixo o pensamento que nos tira a burra paz do óbvio e a liberdade que nos rouba o tranqüilo torpor da rotina. Que o mundo se afogue na burrice, santa burrice, força matriz do universo, felicidade de toda a miséria, repouso angelical dos pecadores.



 Escrito por Rodrigo Farias às 13h54
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   Leituras e leituras...

Navegando por inúmeros perfis no Orkut, uma das primeiras coisas que leio é a parte de "livros favoritos". Tendo eu mesmo uma relação especial com meus livros, mesmo aqueles não lidos ainda, gosto de saber o que as pessoas consideram boa leitura. Parte disso certamente se explica pela idéia, nunca enunciada mas presente, de que se pode conhecer uma pessoa pelos livros que lê, sobretudo por aqueles de que gosta particularmente. Claro, é um conhecimento fragmentado, incompleto, superficial, mas, ainda assim, válido. Imagino que este seja um traço comum à maioria dos bibliófilos.

Foi nessa leitura despretensiosa, colecionando rostos e nomes logo esquecidos, que percebi terem quase todos os perfis bibliográficos uma mesma característica: ficção. Os livros favoritos de quase todos os orkutianos brasileiros que vi eram de ficção, clássica ou contemporânea, mas ficção. De Dostoievsky e Dante a J. K. Rowling e Sidney Sheldon, para não mencionar Paulo Coelho, quase todos gostam mesmo é de uma história inventada. E não se trata de citar alguns livros ficcionais e outros de natureza diversa: quase todos citam esse tipo de literatura, de preferência estrangeira e de autor muito conhecido.

Eu já esperava essa preferência, mas não a supunha tão esmagadora. Será tão ínfimo o número daqueles que gostam de ler uma dissertação sobre algo sem o pretexto de um enredo? Não que um romance não possa ser muito instrutivo, como qualquer um que tenha folheado um Balzac ou um Lima Barreto pode atestar. Mas é raro que leiamos um livro por essa razão, a não ser por obrigações acadêmicas. Tendo mais a crer que essa preferência quase absoluta se deva não à qualidade das obras em si, mas a um outro fator: ignorância. Sim, caros leitores, ignorância boa e simples, aquela companheira que tanto flagela nosso povo, de alto a baixo na escala social. Pois se os poucos de nós que possuem o hábito da leitura são incapazes de apontar um livro de não-ficção de que tenham realmente gostado, e aí se incluem ensaios, análises, obras científicas e filosóficas, é muito provavelmente porque sua "cultura" do mundo é capenga. E, sendo capenga, será insuficiente até mesmo para que apreciem com plenitude as suas obras literárias prediletas.

E você, caro leitor ou cara leitora? Quantos livros de não-ficção já leu este ano? Qual o seu favorito? Qual foi a última vez que procurou um tema para se aprofundar por conta própria?



 Escrito por Rodrigo Farias às 20h16
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De http://www.releituras.com/whauden_menu.asp

Ler

W. H. Auden

 

O livro é um espelho: se um asno o contempla,
não se pode esperar que reflita um apóstolo.

C.G. Lichtenberg

Só se lê bem aquilo que é lido com algum propósito pessoal.
Pode ser até com a intenção de adquirir poder.
Pode ser até mesmo com ódio do autor.

Paul Valery

 

Os interesses do escritor e do leitor jamais são os mesmos e se ocasionalmente chegam a coincidir, trata-se de mero acaso.

No que tange ao desempenho do escritor, a maioria dos leitores adota critérios diferenciados: o leitor pode trair o escritor quanto desejar, mas o escritor não pode jamais, em hipótese alguma, trair o leitor.

Ler é traduzir, pois a experiência de cada pessoa com o texto é exclusiva. Um mau leitor é como um mau tradutor: interpreta literalmente quando deveria parafrasear, e adota a paráfrase quando deveria interpretar literalmente. Para aprendermos a ler de uma forma mais crítica, a erudição, embora bastante útil é menos importante que o instinto; há grandes eruditos que, como tradutores, mostram-se fracos.

Com freqüência enriquecemos com a leitura de um livro percorrendo caminhos diferentes daqueles que o autor previu, mas (uma vez ultrapassada a infância) tal enriquecimento ocorrerá apenas se tomarmos consciência desta discrepância.

Enquanto leitores, a maioria de nós, até certo ponto, é como aqueles moleques que desenham bigodes nos rostos das modelos fotografadas em anúncios.

Um sinal de que um livro tem valor literário é que o mesmo aceita diversas leituras. Em contrapartida, a prova de que a pornografia não tem valor literário é que, se tentarmos uma leitura por um ângulo que não seja o de estímulo sexual, por exemplo, se tentarmos abordar o texto como veículo de liberação psicológica das fantasias sexuais do autor, chegaremos a bocejar de tanto tédio.

Embora uma obra literária permita leituras diversas, o número de tais leituras é finito e pode ser organizado em ordem hierárquica; algumas leituras são obviamente mais “verdadeiras” que outras; algumas, duvidosas; algumas certamente falsas; e outras, como quem lê um romance de trás para frente, absurdas. É justamente por isso que, para uma ilha deserta, devemos levar um bom dicionário, em lugar da maior obra-prima literária que se possa imaginar, pois em relação ao leitor, o dicionário é totalmente passivo e pode legitimamente ser objeto de um número infinito de leituras possíveis.

Não podemos ler um escritor principiante da mesma forma que lemos o último livro de um autor já consagrado. Com relação a um escritor principiante, nossa tendência é perceber apenas as qualidades ou os defeitos e, mesmo que possamos enxergar a ambos, somos incapazes de perceber as devidas inter-relações. No caso de um autor consagrado, se é que ainda conseguimos ler sua obra, sabemos que não é possível apreciar as qualidades que nele admiramos sem tolerar-lhe os defeitos deploráveis. Além disso, nosso julgamento sobre um escritor renomado nunca é meramente estético. A despeito de qualquer mérito literário, um novo livro de tal escritor possui para nós um valor histórico, tratando-se de obra de autoria de um indivíduo pelo qual há muito nos interessamos. Tal autor não é apenas um poeta ou um romancista; é também um personagem em nossa biografia.

Um poeta não é capaz de ler a poesia de outro poeta, nem um romancista lê o trabalho de outro romancista, sem comparar a obra daquele com a sua. A avaliação que faz, à medida que lê a obra alheia, é expressada através de interjeições do tipo: “Meu Deus! Meu pai! Minha mãe!"

Em literatura, a vulgaridade é preferível à nulidade, assim como o vinho do porto é preferível à água destilada.

Bom gosto é mais uma questão de discriminação que de exclusão, e quando por razões de bom gosto somos levados a excluir, isso é feito com pesar, não com prazer.

No processo de seleção do que se lê, o prazer não constitui absolutamente um valor crítico infalível; contudo, é menos falível.

A leitura de uma criança é comandada pelo prazer, embora seu gosto não tenha capacidade discriminadora. A criança não consegue distinguir, por exemplo, entre o prazer estético e o prazer de aprender ou de sonhar acordada. Na adolescência damo-nos conta de que há diversos tipos de prazer, alguns dos quais não podem ser sentidos simultaneamente, e precisamos do auxílio de outras pessoas no processo de definição desses prazeres. No que tange a questões de gosto relativas à comida e à literatura, por exemplo, o adolescente busca um preceptor em cuja autoridade possa confiar. O jovem passa a comer ou a ler aquilo que o preceptor recomenda e inevitavelmente há ocasiões em que tem de enganar a si próprio; finge, por exemplo, que gosta de azeitonas ou de Guerra e Paz mais do que de fato gosta. Entre os 20 e os 40 anos vivemos o processo da descoberta do que somos, processo esse que envolve a percepção da diferença entre as limitações acidentais, as quais temos o dever de superar, e as limitações necessárias da nossa própria natureza, as quais não podemos superar impunemente. Poucos de nós chegam a tal percepção sem cometerem erros, sem tentar nos tornar mais universais do que nos é permissível. É exatamente durante esse período que um escritor pode facilmente ser desviado por outro escritor ou por alguma ideologia. Quando alguém na faixa dos 20 aos 40 anos diz com respeito a uma obra de arte: “Eu sei do que gosto”; está na verdade dizendo: “Não tenho um gosto pessoal mas aceito o gosto do meu meio cultural”; isto porque entre os 20 e os 40 anos a indicação mais precisa de que um indivíduo possui um gosto autêntico e pessoal é a própria incerteza a respeito do assunto. Após os 40 anos, caso não tenhamos perdido totalmente a autenticidade, o prazer pode voltar a funcionar como funcionava quando éramos crianças: como valor crítico que determina o que devemos ler.

Embora o prazer que obtemos da apreciação de obras-de-arte não deva ser confundido com outros tipos de prazer, ele está relacionado com todos os tipos pelo simples fato de constituir um prazer nosso e não de outra pessoa. Todas as avaliações estéticas e morais que fazemos, não importa quanto nos empenhemos em ser objetivos, são por um lado uma racionalização e por outro uma ação disciplinar imposta sobre nossas aspirações subjetivas. Enquanto um indivíduo escreve poesia ou ficção, seu sonho do que constitui o Éden é assunto que somente diz respeito a si próprio mas, no momento em que o mesmo passa a escrever crítica literária, por questões de honestidade deve descrever seu Éden para os leitores, de maneira que os mesmos tenham condições de julgar as avaliações do crítico. Com efeito, passo a responder um questionário, por mim mesmo elaborado, que fornece as informações que eu mesmo gostaria de ter antes de ler o trabalho de outros críticos.



 Escrito por Rodrigo Farias às 13h47
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   O Amor e a Musa

Pigmalião e Galatéia, de Jean-Léon Jérome

Pigmalião e Galatéia, de Jean-Léon Jérome

Um dos mais comuns e deliciosos subprodutos da juventude é a idéia de "musa". As moças certamente terão seu "Adônis" imaginário, não lhes nego isso, embora me pareça que se inclinem mais que os rapazes a encarná-lo no seu presente amor. É como se, aos seus olhos, um se moldasse ao outro, num hibridismo imprevisível que geralmente só é posto a perder pela inépcia do amado. Em nós, homens, o processo é diferente, senão como regra, certamente como tendência estatística.

Voltemos à musa. O que a define? Alfa e ômega do inevitável romantismo que nos infecta lá pelos princípios da puberdade, a musa é a encarnação de nossas necessidades, reais ou imaginárias. Costumeiramente linda, mas não arrebatadora; amável, não sensual; delicada e devotada, nunca independente e agressiva. A encarnação da tradicional figura feminina, a musa do adolescente está para as mulheres reais como o Apolo de Belvedere para os homens comuns, talvez apenas com a diferença de que quase todos estes, se consultados, até gostariam de ser como aquele, ao passo que o mesmo cada vez menos possa ser dito quanto à mulher pós-moderna.

À medida que vamos crescendo e a interação com as moças vai aumentando, abrem-se duas perspectivas típicas: para os mais desenvoltos, a velha fantasia é trocada pela realidade de farras, "casinhos" e "ficadas", até por uma namorada ou várias; para os mais retraídos, a musa continua viva, agora se dispersando por mil rostos, olhares e sorrisos, quase invariavelmente tão próximos quanto inalcançáveis. O coração que dispara ao leve esbarrar da colega da carteira ao lado; o singelo cumprimento de uma velha amiga de infância que de súbito desperta emoções mais vivas; um sorriso de agradecimento; uma gentileza no ônibus: tudo pode ser motivo para dar um novo rosto ao ideal da musa. Como o Verbo do Evangelho, ela se faz carne. Não anda apenas em nossos sonhos, passa ao nosso lado, respira, fala, tem um perfume que só nós distinguimos... Tem defeitos também, quase imperceptíveis, sempre perdoáveis. Contemplamo-la com felicidade a cada vez, e crescente necessidade. Dela são nossos desejos, nosso prazer e, como não poderia deixar de ser, nossas mais solitárias lágrimas.

O que nos escapa nessas horas é uma distinção que somente a frieza da experiência poderá ns mostrar. É que, apesar da carne e do sangue que ostenta, nossa amada ainda conserva muito de nossa imaginação. Muitos de seus encantos estão antes em nós que nela própria, feitos realidade por filtros misteriosos. Nosso amor, enquanto a musa se mantém inalcançada e remota em sua proximidade, alimenta-se, na verdade, de luar e névoa.

Mas eis que o tempo passa, e nossa ingenuidade é forçada pela cadeia imprevisível dos fatos. Uma solidão acaba encontrando outra, e o que antes parecia um ideal místico se torna um evento cotidiano. Sucedem-se o primeiro beijo, a primeira namorada, as primeiras descobertas e, enfim, o primeiro sexo. O rapaz ingênuo já não espera apenas fantasia e encanto; a realidade, "a vida como ela é" se faz sentir em seu entorno, e será ali o seu novo espaço de ação. A maturidade começa a resgatá-lo do papel de herói trágico de suas insuficiências afetivas. Aos poucos, em seu coração, o amor vai deixando de ser uma questão de sonho para ir se transformado em outra de cálculo.

E a musa? Ora, é bem possível que a esta altura, ela tenha mesmo se encarnado. Em vez da protagonista de cenas etéreas projetada aqui e ali em tanta gente, o garoto transformado em homem assume uma perspectiva mais prática. Terá, sim, sua musa, mas não uma criada em sua mente e lançada como luz sobre uma pessoa real; não, o mais provável é que ele tome para o cargo uma pessoa bastante concreta que, mais do que um modelo, será uma espécie de meta perene. Outras mulheres passarão por sua vida, e ele provavelmente as amará com sinceridade. Porém, no fundo de sua consciência, na solidão de suas reflexões, ao pensar nos inúmeros "E se...?" de sua vida, o rosto de sua musa será o primeiro a despontar, gravado com fogo em algum recesso da memória. Talvez nesta hora ele sinta alguma nostalgia de alguns momentos que poderiam ter sido cruciais, de coisas que poderia ter feito e não fez, quem sabe uma confissão... Mas é quase certo que, se for fiel, acabe por espantar esses pensamentos e contemple seu par atual carinhosamente, talvez até com um pouco mais de ardor... para afastar a leve pontada do remorso de se ver a considerar a mera possibilidade de ter estado com outro alguém. E telefonará para sua atual amada, ou quererá mandar um cartão, um presente, dar um abraço aparentemente sem motivo. Mas, pelo menos neste momento, não será tanto por ela, e sim, mesmo que não perceba, por si mesmo.

Mas, sendo tantas as surpresas da vida, quem sabe o que virá? Aos milhares, aos milhões, amores radiosos como as estrelas  nascem, crescem, declinam e morrem... Juras eternas duram apenas alguns anos, até alguns meses, e almas gêmeas descobrem-se bastardas uma da outra. Quando o velho amor não mais existe, e não há mais para quem telefonar, mandar um cartão, um presente ou um abraço, aparentemente sem motivo, o coração do homem se vê nômade, sem pouso tranqüilo. Talvez ele mergulhe no trabalho, dedique-se a um projeto pessoal ou, se for desses, procure esquecer sua falta em farras épicas e freqüentes. Porém, o passado não morre com os amores, devora-os; e as lembranças anteriores ao amor que se foi voltarão mais nítidas, embalarão as horas de descanso. Ao sentir a falta da tepidez de um abraço, o aconchego de um seio, a mente masculina vagueará em busca de um objeto de saudade, considerará muitos rostos, velhas paixões, talvez receda décadas em busca de alguém que possa compensar essa necessidade, mesmo que só na imaginação. E aí, mais uma vez, a musa se erguerá, jovem como nunca deixou de ser, bela como a aurora, desejável como a vida, afável como um anjo. E ele, o solitário, se perguntará por onde anda ela, se ainda (ou já) está sozinha, se o antigo telefone ainda pode ser encontrado em alguma agenda... Por que não? O mundo dá tantas voltas...Quem sabe se...



 Escrito por Rodrigo Farias às 11h57
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   Sobrenomes

Segundo Jacques Barzun ("Da Alvorada à Decadência"), foi na Idade Moderna que ter um sobrenome se tornou obrigatório para todos na Europa, à medida que o Estado centralizado se fortalecia. No início, a escolha era casual e arbitrária, alguns sobrenomes se referiam a uma localidade, acidente geográfica, filiação (como o famoso McDonalds: "filho de Donald") ou característica física ("Strong", "Gray" e, creio, casos como "Feio"). Além disso, como quem pesquisa o Brasil colonial bem sabe, pelo menos no mundo português o sobrenome não era necessariamente hereditário. O filho de um Gomes da Silva poderia ser um Alvarenga Melo, se os pais assim quisessem. Foi só com o passar do tempo, e uma certa burocratização da sociedade, que os sobrenomes foram se fixando.

É curioso que agora o processo se repita, em pleno século XXI.
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The Globe and Mail
June 12, 2004

Mongolians seek to make a name for themselves

After more than 80 years without surnames, picking one is as much about personality as it is ancestry, GEOFFREY YORK writes.

By GEOFFREY YORK

ULAN BATOR -- For the first time in his life, Batbold needs a surname. And after some moments of reflection, he thinks he has found the perfect name: the tribal name of Genghis Khan.

"I'm kind of proud of Genghis Khan," the 25-year-old tailor said shyly as he lined up to register his new name. "He was a good leader, a strong warrior. I kind of feel that I'm from the same tribe."

For more than 80 years, everyone in Mongolia was on a first-name basis. After seizing power in the early 1920s, the Mongolian Communists destroyed all family names in a campaign to eliminate the clan system, the hereditary aristocracy and the class structure.

Within a few decades, most Mongolians had forgotten their ancestral names. They used only a single given name -- a system that eventually became confusing when 9,000 women ended up with the same name, Altantsetseg, meaning "golden flower."

By the mid-1990s, Mongolia had become a democracy again, and there were growing worries about the lack of surnames. One name might be enough when most people were nomadic herdsman in remote pastures, but now the country was urbanizing. The one-name system was so confusing that some people were marrying without realizing they were relatives.

In 1997, a new law required everyone to have surnames. The law was largely ignored, but then a system of citizenship cards was introduced. Slowly the country of 2.5 million began to adopt surnames.

Today, however, there are still 10,000 people without surnames. So the government is trying to solve the problem with a mixture of incentives (a discount on the registration fee) and heavy-handed pressure (a threat of financial penalties on anyone who fails to get a citizenship card before the June 27 national election).

And so Batbold joined a horde at a civil registration office in Ulan Bator this week, clutching a stack of documents to legalize his newly chosen name.

His new surname, Borjigin, the tribal name of Genghis Khan, has become the most popular name in the country. It means "master of the blue wolf," a reference to Mongolia's creation myth.

"Everyone wants the name Borjigin, as if they have some connection to Genghis Khan," said Serjee Besud, director of Mongolia's state library and a leading researcher on surnames.

"It's like a fashion. But it has no meaning if everyone has the same name. It's like having no name at all."

Mr. Besud has spent years poring over the dusty archives of the state library to compile a book of possible surnames for the nameless. He obtained access to the highly secret archives of the country's Communist Party, which included detailed lists of the names of noble families who were prohibited from party membership.

He discovered his own long-lost surname, Besud, by finding his grandfather's name on a 1925 list of conscripts in a Communist army.

His book, called Advice on Mongolian Surnames, provides maps and lists of historically used surnames in each region of the country.

The book also suggests other ways to choose a surname. Some people choose the name of a mountain or river in their ancestral region.

Others prefer the name of an ancestral occupation: Blacksmith, Herdsman or Writer. Some names are linked to clans: White Camel or Black-and-White Horse.

And some names have more obscure origins. One surname listed in the book, perhaps less fashionable today, is Seven Drunk Men.

As the election deadline approaches, the registration offices in Ulan Bator are surrounded by mobs, kept behind ropes as they wait their turn to enter the office to register their new surnames.

Mungunkhoyag, a 54-year-old payroll manager in an Ulan Bator factory, stood in the queue with a sheaf of documents to register his new name. He says he knows many people who have chosen the Genghis Khan tribal name as their surname, but he disapproves of the idea. "I don't like it," he said. "You should have your original name. If you use a different name, it means you have different blood."

In his own case, he knew the last name of his grandfather --Zuutrag -- and now he is registering it as his own surname.

"I'm very proud of getting my family name on my documents," he said.

"If you have only a single name, mistakes can be made. I used to tell my children that we were from the Zuutrag clan. Now I am making it official."

Even after seven years of registering new surnames, however, most Mongolians are still in the habit of using a single name. Their business cards, for example, usually list their given name and their father's given name -- with no surname. Many people have no clue as to their friends' surnames.

Mongolia's Defence Minister, an earnest, bespectacled man with a "Hero of the Soviet Union" medal on his jacket, is the proud owner of probably the coolest name in the country.

The 58-year-old minister, Gurragchaa, is a former cosmonaut on a Soviet spaceship -- the only cosmonaut from Mongolia. And so when he was unable to discover his ancestral surname, he chose Sansar, the Mongolian word for the cosmos. His children will use the same name.

"It's actually nothing very special," he said, shrugging. "Everyone is proud now to restore their surname."

When he handed over his business card, however, his new name didn't appear. Slightly embarrassed when this was pointed out, he noted that Mongolians "don't have a tradition of using surnames," but added, "I have some newer cards and my surname is on those cards."

 



 Escrito por Rodrigo Farias às 10h28
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