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Réquiem para Kravinoff
Eu sou Kraven, a fera.
Minha mente é fúria e glória.
Meu coração é chama e orgulho.
Meu corpo é graça e poder.

Uma das mais subestimadas formas de arte, a história em quadrinhos já trouxe ao mundo obras-primas que nada devem, em força e densidade narrativa, à alta literatura de todos os tempos. O Cavaleiro das Trevas, Asilo Arkham, Marvels, Sandman e O Monstro do Pântano de Allan Moore, para ficar apenas nos exemplares mais famosos da produção americana, gravaram as mais intensas emoções em milhões de mentes juvenis, com suas tragédias e imagens poderosas. Talvez seja até justo especular que, numa época bombardeada diuturnamente por imagens, as páginas dessas publicações tenham tido para seus leitores um impacto semelhante ao que uma pintura de Vermeer ou uma escultura de Michelangelo tiveram para seus contemporâneos. São obras que chocam pela beleza visual, às vezes tão terrível quanto cativante, e pelo poder dos arquétipos que evocam.
Assim é A Última Caçada de Kraven, relançada este mês em volume único pela Panini Comics. Escrita em 1987 por J. M. DeMatteis e ilustrada por Mike Zeck, é uma história de obsessão, grandeza e acerto de contas como poucas vezes já se viu no universo estandardizado dos super-heróis. Publicada originalmente como apenas mais uma saga regular do Homem-Aranha, um personagem aparentemente menos propenso a histórias sombrias à la Poe, A Última Caçada se destaca pelo tratamento literário dado ao estilo narrativo e aos personagens, com destaque para o vilão, Sergei Kravinoff, vulgo Kraven, o Caçador — personagem que nunca figurou no panteão dos grandes inimigos do Aranha. Pois é justamente esse vilão de segunda linha, espécie de Tarzã perverso obcecado por troféus de caça, que DeMatteis apresenta como uma alma melancólica e temível, em guerra consigo própria, dividida entre um enorme cansaço da vida e a fixação de derrotar a única criatura que sempre lhe negou a glória: a Aranha. Não o sujeito fantasiado a balouçar por Nova York, mas a força metafísica e corruptora que ele representa aos olhos do orgulhoso filho de aristocratas russos, forçado “pelos Trotskis e Lenins” a viver numa sociedade medíocre que não mais compreende o sentido de honra. Numa noite chuvosa, numa Nova York vazia e claustrofóbica, Kraven decide restaurar sua honra e enfrentar o maior desafio de sua vida. Uma última vez.
Não se trata mais de uma mera luta de bem contra o mal. DeMatteis apresenta uma trama muito mais complexa, narrada em primeira pessoa por cada um dos protagonistas, incluindo facetas nem sempre muito bem exploradas em outras ocasiões. A visita de despedida do Homem-Aranha ao funeral paupérrimo de um pequeno marginal que ele mesmo prendera várias vezes; a ternura que Kravinoff consegue sentir pelo adversário em quem enfim passou a enxergar apenas um homem, “um bom homem”; o sofrimento de Rattus, um monstro assustador, porém muito mais assustado por um mundo que não consegue reconhecer como seu e que tantas vezes o fez sofrer... Como em toda obra-prima, há muito mais que se poderia dizer e interpretar. Mas dizer mais, com a revista nas bancas, seria um sacrilégio. Que cada um tire suas próprias conclusões.
Escrito por Rodrigo Farias às 19h02
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Hino à matéria
Bendita sejas tu áspera matéria terra estéril, dura rocha, que cedes apenas à violência e nos forças a trabalhar, se quisermos comer.
Bendita sejas poderosa matéria evolução irreversível, realidade sempre nascendo que a cada momento fazes em estilhaços nossos limites e nos obriga a procurar cada vez mais profundamente a verdade.
Bendita sejas, matéria universal, éter sem fronteiras, triplo abismo das estrelas dos átomos e das gerações. Tu, que dissolvendo e transbordando nossas estreitas medidas nos revelas as dimensões de Deus.
Bendita sejas impenetrável matéria tu que és tensão entre nossas almas e no mundo das essÊncias nos fazes definhar com o desejo de romper o véu dos fenômenos.
Bendito sejas, matéria imortal, tu, que desagregando-te um dia em nós nos induzirás, forçosamente, no íntimo daquilo que é.
Sem ti, matéria, sem teus combates, sem teus dilaceramentos, viveríamos inertes estagnados, pueris, ignorantes de nós mesmos e de Deus.
(Teilhard de Chardin)
Escrito por Rodrigo Farias às 09h47
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Ainda dentro do assunto leitura, um ensaio do historiador e crítico cultural Jacques Barzun. O texto é um pouco mais longo do que o usual num blog, mas vale a pena. A tradução é minha.
Para que servem os clássicos hoje?
Jacques Barzun
Obviamente o primeiro serviço que um clássico presta é estabelecer uma ponte entre o passado e o presente ao remexer sentimentos semelhantes aos que um dia moveram os seres humanos — gente que em parte era muito parecida com nós mesmos, e em parte muito diferente. Essa é uma experiência interessante em si mesma — tão interessante quanto viajar para o Tibet ou estudar a vida doméstica do canguru. E realmente viajar, viajar no tempo e também no espaço.
Mas antes de seguirmos em frente com as outras utilidades dos clássicos, talvez nós devêssemos perguntar, “O que é um clássico?”. Muitas definições já foram dadas, envolvendo palavras tais como “universal” e “permanente”. Eu desconfio do que elas implicam. Uma mera reflexão mostra que um clássico em um país é quase desconhecido em outro — portanto não é universal. É certo que os clássicos do Extremo Oriente não existem como tais no mundo ocidental. E o Extremo Oriente nem é tão longe — ele começa na Rússia, onde, por exemplo, Eugen Onegin, de Pushkin, é um dos maiores clássicos. Quantas pessoas o conhecem por aqui? Somente especialistas, como aqueles que conhecem os clássicos da Índia, da China e do Japão. Isso quanto à universalidade. Quanto à permanência, a história está aí para nos mostrar que, ao longo dos séculos, os grandes escritores mudam de valor como o dólar ou a libra esterlina. Hoje em dia, quem pensa em Cícero como uma tremenda figura literária? E, no entanto, ele foi o ídolo da Renascença. E onde estava John Donne antes de T.S. Eliot e seus seguidores fazerem dele o seu mestre? O próprio Shakespeare só foi canonizado 150 anos atrás, pelos poetas e críticos românticos.
Logo, nossa primeira noção a respeito de um clássico deve ser a de que esta é uma designação variável: é ou pode ser aplicada a obras que um possuem um certo potencial de classicalidade. Portanto não há um número determinado de clássicos — nem cem nem mil —, nenhuma lista definitiva, mesmo que hoje no Ocidente um minúsculo grupo de obras tenha se mantido com esse status há quatrocentos anos. Isto é o que lhes dá a ilusão da permanência. Mas há milhares de obras em muitas línguas que são ou poderiam ser tratadas como clássicos.
A questão, pois, passa a ser o que faz de uma obra um clássico em potencial. Aqui podemos apontar com mais segurança para certas características. A primeira é “grossura”, como a chamou Henry James, referindo-se não à largura do livro na prateleira, mas à densidade de seu discurso: muita coisa acontece em cada linha ou parágrafo; cada sentença contém uma idéia; a obra inteira cobre acres de pensamento e emoção; ao passo que o livro comum, não importa quão grosso na medida física, agarra-se em um ou dois assuntos — qualquer coisa indo de Como Fazer Amigos e Influenciar as Pessoas até as recentes discussões sobre a indústria japonesa. Da mesma maneira, os poemas e novelas de nossa labuta diária podem ser agradáveis ou instrutivos, mas não nos moldam o mundo inteiro numa nova forma. Eles lançam alguns lampejos de luz naquilo que nós já sabemos ou de que suspeitamos.
Escrito por Rodrigo Farias às 04h16
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Agora você deve estar impaciente para conhecer as outras utilidades dos clássicos, além da primeira que eu já mencionei, a de estabelecer uma ligação viva com o passado. Para entender a próxima utilidade, é preciso entrarmos na natureza de um clássico, porque a segunda utilidade é: ensinar a ler. Digo “ler” no sentido honorífico de ler de maneira inteligente e completa. Porque um clássico é grosso e completo, e por ter surgido de uma situação passada, ele é difícil de ler. A atitude mental e a atenção que bastam para a leitura de um jornal e da maioria dos livros não serão suficientes desta vez. Nós lemos assuntos comuns passando os olhos sobre o texto a uma velocidade constante, raramente parando para pensar ou nos impressionar. O material foi escolhido e escrito justamente para esse ritmo veloz, sem esforço. Esse rápido avanço se torna habitual e esta é a razão por que a grande maioria das pessoas em toda parte , incluindo a maioria das que têm educação universitária, lêem apenas livros contemporâneos, e, destes, somente os do tipo leia-enquanto-corre. Na faculdade, essa gente pode ter enfrentado um punhado de clássicos e escapado ilesa, mas o mais provável é que o currículo tenha sido adaptado aos seus gostos, e as leituras em literatura inglesa e americana sejam do tipo corrente. Então, uma vez bacharéis — adeus a tudo isso!
Mas para que, afinal, aprender a ler de um modo diferente através dos clássicos? A resposta é simples: para viver num mundo mais amplo. Mais amplo que o quê? Mais amplo que aquele que nos chega pela rotina de nossas vidas materiais, e pelos jornais e revistas factuais — Psicologia Hoje, Casa e Jardim, Esportes Ilustrados; mais amplo que os planos e as fofocas de amigos e vizinhos; mais amplo especialmente que nosso negócio ou profissão. Pois nada é mais limitante que a nossa própria loja, o que piora ainda mais à medida que aplicamos nossa mente e nossas energias para termos sucesso. Isto é particularmente verdadeiro hoje, quando cada professor se tornou um nicho de especialidades constantemente se subdividindo. Um advogado não é um jurista, é um tributarista, ou um ás em curadorias e imóveis. O próprio trabalho consiste em uma luta com uma massa de jargões, convenções e números que não possuem qualquer significado fora de sua especialidade. Todo o mundo moderno gira em torno de sistemas e abstrações superimpostas à realidade, uma imensa farsa, embora seus resultados sejam reais o bastante na vida de um indivíduo, caso este não conheça e siga as sempre mutáveis regras do jogo.
E como se trata de um jogo e uma farsa, qualquer um que procure acesso à vida humana e às possibilidades que ela oferece — a pensamentos e sentimentos surgidos espontaneamente ou por meio de reflexão profunda — deve usar outro canal. Uma tal canal pode ser aberto por meio dos clássicos da literatura e da filosofia; outro pode ser construído através das belas artes e da música. Digo “aberto” e “construído”, em vez de “encontrado”, por causa daquela “grossura” que sempre volto a mencionar. As grandes obras não cedem sua carga à vontade; mas se os lermos com concentração (pois obras de artes também são “lidas”), o esforço nos dará a posse de um vasto acervo de experiência vicária; estaremos face a face com toda a gama de percepção que a humanidade atingiu e que é negada pela nossa existência inevitavelmente artificial. Através desta experiência, nós escapamos da prisão, seja ela profissional, de negócios ou suburbana. É como ganhar uma nova vida. O Dr. Johnson, que não era dado a exageros, disse uma vez que a diferença entre um homem letrado e um analfabeto era a diferença entre um vivo e um morto.
Tal alargamento de visão tem um efeito colateral útil. Os mesmos hábitos de escrutínio persistente, de sensibilidade para o que não é dito mas é implícito, de paciente meditação após encontrar o que é estranho — tudo aprimora a capacidade de julgar as situações da vida e o caráter humano. Um curso de clássicos não garante que uma pessoa será mais feliz ou mais ética, mas de fato encoraja um certo desapego que tende a favorecer a serenidade e possivelmente uma maior decência. Numa forma ainda mais prática e imediata, os clássicos atendem às necessidades humanas: como um extraordinário meio de comunicação. No nível mais baixo, eles suprem nomes e frases carregados com múltiplos significados — atalhos para a explicação e a persuasão; no mais alto, criam um corpo de compreensão baseado numa experiência compartilhada ativamente.
O primeiro desses auxílios á comunicação vem do fato de que os clássicos têm contribuído para o vocabulário geral, mesmo que o cidadão comum não se dê conta disso. Tomemos uma manchete recente da primeira página do The New York Times: “Alumínio não foi o calcanhar de Aquiles do U.S.S. Stark”. A referência era a um navio bombardeado no Golfo Pérsico, e foi a primeira indicação de que o navio possuía um calcanhar. Ora, calcanhar de Aquiles significa ponto fraco, mas o repórter preferiu uma expressão mais colorida; talvez ele a tenha usado sem saber de onde ela veio ou como adquiriu seu significado. E esse não é um caso isolado. Numa edição da revista Time, eu encontro: o Meio Dourado, um julgamento de Salomão, e cruzar o Rubicão. As pessoas evidentemente pensam por meio dessas imagens, e há gordos livros de referência para dizer ao ignorante o que elas significam. Tomadas em conjunto, elas podem ser descritas como o resíduo da alta energia dos clássicos.
Parece desejável conhecer estas coisas em seu cenário original, em contexto. Especialmente agora que a educação é precária, estas alusões tradicionais têm sido corrompidas pelo mau uso e por isso perdido um claro significado. Dá-se de cara com coisas como: “desfazer o nó gordon” (provavelmente um laço inventado por algum Gordon); a “pedra de Sílifo” e um “grito senatorial”. Quanto ao rei Canuto, aquele tão inteligente soberano é mal representado como querendo fazer recuar o oceano, quando na verdade estava mostrando aos seus cortesãos que ele não podia parar as ondas como eles pareciam desejar. Em suma, se quisermos saber do que uma pessoa está falando, convém estar familiarizado com as histórias que dão sentido aos ditados.
Quando passamos do jornal para os livros comuns acerca de assuntos contemporâneos, estaremos perdidos se não formos capazes de apreender o que está implicado nas citações de grandes poetas, filósofos e novelistas. Os autores costumam achar um atalho conveniente ao escrever coisas como: a coisa-em-si, o mais honrado na brecha, ironia socrática, cabeça do rei Charles, apetite gargantuano, mudos e inglórios Miltons. Mais uma vez, leitor e escritor devem estar em sintonia. Não faz muito tempo, eu li uma entrevista na qual o rico proprietário de uma nova mansão dizia que ele e sua esposa tinham agora realizado o sonho de ter “um lugar agradável e reservado”. O que ele não percebeu foi que estava citando a descrição de Andrew Marvell para o túmulo.
Escrito por Rodrigo Farias às 04h10
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Estes elementos clássicos de leitura e escrita são parte de algo maior, conhecido como nossa herança cultural — o conhecimento acumulado sobre os nossos ancestrais, seus feitos e ditos. Ninguém se cria numa sociedade estabelecida sem pegar migalhas e fragmentos dela e ser moldado de alguma forma por eles. O jovem Washington e a cerejeira; a cabana de madeira de Lincoln e sua labuta como cortador de trilhos; o general Sherman com a sua “A guerra é o inferno”, todos são fragmentos de uma vida passada embutida na mente americana. Sua utilidade não é visível de imediato, mas eles significam mais do que “Não conte mentiras”; “a origem humilde não detém um bom homem”, e daí por diante. Eles recordam uma cena e carregam uma mensagem mais profunda que a obviedade que expressam: a palavra enfática de Sherman não vem de um pacifista, mas do homem que liderou uma marcha de devastação ao Sul [dos Estados Unidos]. É esta parte meio implícita e meio expressa que exerce a função da continuidade cultural e mantém uma nação unificada graças aos sentimentos comuns e a uma compreensão comum.
Uma famosa anedota ilustra bem isso. Certa vez, o poeta Coleridge estava dando uma palestra sobre literatura inglesa em Londres e casualmente mencionou que o Dr. Johnson, voltando para casa uma noite, achou uma mulher das ruas que tinha desmaiado e estava caída na rua. Ele a levantou e a levou nas costas até os aposentos dele, onde a reviveu e a alimentou e abrigou até que se recuperasse. A audiência elegante de Coleridge começou a rir em silêncio e a dar sinais de desaprovação, os homens divertindo-se, as mulheres chocadas. Coleridge parou e disse gravemente: “Lembrem-se da parábola do Bom Samaritano.” Dez rápidas palavras acabaram com o burburinho. O apelo a um exemplo cultural comum, neste caso das Escrituras, bastaram para dissipar a tolice e fazer a multidão sentir e pensar como se fosse uma só. Uma hora de sermão sobre a caridade e a virtude de esquecer as convenções quando a vida humana está em jogo não teria tido a mesma força decisiva; teria sido uma explicação e uma apologia, enquanto a alusão à Bíblia instantaneamente evocou as emoções certas em conjunção com as idéias certas.
A necessidade de um corpo de conhecimentos e referências comuns não desaparece quando a sociedade é pluralista. Pelo contrário, ela se torna ainda maior, de modo que pessoas de origens e ocupações diferentes possam rapidamente encontrar um terreno familiar e, por assim dizer, falar a mesma língua. Ela não apenas economiza tempo e constrangimento, mas também garante uma espécie de confiança e boa-vontade naturais. Não estamos falando com um alienígena, nu como uma parede de pedra, mas uma criatura sensível cuja mente é preenchida com as mesmas imagens, memórias e vocabulário que nós mesmos. De outra forma, com a implacável marcha da especialização, a mente individual está condenada à solidão e o coração individual, à secura. Os dispositivos mecânicos que supostamente nos mantêm juntos — a televisão e a imprensa, o telefone e a rede de computadores — fazem isso em um nível e de uma forma podem ser tudo, exceto nutritivas para o espírito. Mesmo os programas de televisão mais elitizados apresentam a literatura e a história de forma deturpada; o meio requer que indumentária, cenário e veículos ofusquem a filosofia. O que é notável que o público parece vagamente cônscio deste grande vazio: programas de elite ou populares estão perdendo audiência e os patrocinadores estão com problemas.
Para quem se sente desprovido desta maneira, o recurso aos clássicos não exige nada de novo; não requer poderes sobre-humanos. Para as gerações anteriores, os livros eram uma fonte tão natural de informação e entretenimento quanto as transmissões para o jovem de hoje. Foi a necessidade de aprender com os livros que fez o povo comum clamar por educação; eles desejavam pagar por escolas públicas, de forma que todos pudessem ler e escrever. Subir na vida era um forte motivo, mas a satisfação da curiosidade sobre a vida era outro. William Dean Howells conta em sua autobiografia como as pessoas se sentiam a respeito dos livros em sua cidadezinha natal em Ohio por volta de 1840. O navio a vapor chegava ao píer de vez em quando — todos sabiam exatamente quando — e, em meio a mercadorias de todos os tipos, descarregava um barril cheio de livros. Em poucos minutos, os livros já haviam sido vendidos. Quem comprava eram os fazendeiros e pequenos comerciantes que nunca haviam freqüentado o ensino secundário, muito menos uma faculdade. A auto-educação de Howells, como a de Lincoln, veio desses livros.
O que constitui hoje a herança cultural que outrora era automaticamente considerada como conhecida por toda a gente educada e que educava os demais? A dúvida é real, por causa do grande número de clássicos empilhados durante os últimos 500 anos e também porque o estudo das línguas necessárias para ler os antigos simplesmente deixou de existir. Perturbadas por essa incerteza, três pessoal reflexivas e cultas lançaram recentemente um inventário de quase cinco mil fatos, nomes, idéias e termos técnicos necessários a uma alfabetização cultural. Esta é a porção mínima da herança que elas pensam adequada para manter uma cultural nacional.
Tendo feito e publicado a lista, elas agora estão trabalhando em um dicionário que vai explicar os cinco mil termos. Este duplo esforço é elogiável; deveria chamar a atenção para o alastramento de uma ignorância prejudicial. Mas o remédio parece mais mecânico que educativo. Aprender “os fatos” sobre Aristóteles e Lutero e Alexander Hamilton e 4.997 outros, seria um gigantesco feito de memorização, ao passo que aprender esses fatos e muitos outros enquanto se está estudando História e lendo os clássicos é, por comparação, muito fácil. Os fatos então se agarram à mente como os nomes das ruas ao redor da sua casa: você nunca se esforçou para aprendê-los, eles vêm como parte de sua familiaridade direta com o local. Esta diferença me parece a mais importante; e ela aponta para mais uma utilidade dos clássicos: eles o educam quando você os lê — desde que você os leia da maneira certa no tempo certo. Considere esta última condição: quando e como os clássicos devem entrar em nossas vidas? Eu já disse que eles não podem ser lidos como um artigo de revista. É preciso alguma forma de compulsão para começar, e muitas vezes o iniciante ansioso atola em dificuldades. Para ajudar e aplicar a pressão correta, portanto, é necessário treinar. É por isso que os clássicos devem ser conhecidos e conquistados, na pior das hipóteses, na faculdade.
Na pior das hipóteses: a época realmente apropriada deveria ser a dos dois últimos anos do ensino secundário, quando o começo da maturidade desperta sentimentos e pensamentos acerca do sentido da vida e da natureza da sociedade. Nossos obtusos especialistas em educação ficariam chocados ao verem quão apaixonadamente um grupo perfeitamente comum de garotos de 15 anos pode chegar a discutir O Príncipe, de Maquiavel, ou As Confissões, de Santo Agostinho. Mas a oportunidade passou, e a faculdade oferece a última chance de desenvolver o hábito de ler e desfrutar livros densos.
Escrito por Rodrigo Farias às 04h07
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Agora que esboçei as vantagens obtidas com os clássicos — o alargamento do espírito através de experiências vicárias, a sua utilidade como um meio rápido de comunicação, sua influência na construção do Eu e o fortalecimento do discernimento próprio —, sinto-me no dever, antes de terminar, de deixar uma advertência. Como todas as coisas boas, os clássicos podem ser mal utilizados.
Estudar clássicos pode redundar em mera cultura livresca. Seu conteúdo terá sido fiel e acuradamente absorvido, mas a mente que os abriga parecerá incapaz de ir além de sua aquisição e usá-lo. Isto não se deve a uma falha incurável da mente, e sim a um ensino que treina a percepção e deixa a imaginação de lado. Por imaginação eu não me refiro à fantasia solta ou ao sonhar acordado. Eu me refiro a imaginar o real, fazendo um esforço bem-sucedido para reconstruir, a partir das palavras numa página, vidas, circunstâncias e sentimentos passados. Tal habilidade não de nascença para ninguém, mas qualquer germe dela pode ser desenvolvido pela prática após o ensino ter mostrado o caminho. Não se trata de nenhuma especulação inverificada. Para imaginar, digamos, a vida do servo medieval, nossas idéias devem estar de acordo com um grande número de informações encontradas nas fontes e devem pegar de alguma forma uma certa atmosfera impalpável. Normalmente é preciso desaprender vários clichês absorvidos de uma miscelânea de leituras, filmes ruins e romances baratos.
Compreensão imaginativa é o capacita a mente a transferir o seu conhecimento a novas situações. A Inglaterra de Tom Jones e a Rússia de Guerra e Paz já se foram, mas as tribulações de Tom e Pierre ainda podem servir de guias no presente, bastando que nossa imaginação veja claramente como o amadurecimento de uma alma jovem foi transformado por uma sociedade também mudada e como, ao mesmo tempo, ele se mantém o mesmo.
Mais uma vez, para permitir esse jogo de imaginação, as obras devem ser lidas e lidas por inteiro, e não os resumos disponíveis em livros de referência. Só com esse esforço a mente poderá formar imagens verdadeiras e distintas. Se, por exemplo, alguém consultar ensaios e manuais sobre “O Legado da Grécia”, Homero, Platão, Tucídides e o resto se misturarão num retrato idílico de uma gente pagã e jovial, todos conhecedores das belas artes e grandes matemáticos. A imaginação desenvolvida rejeita esse retrato logo à primeira vista. Ela sabe que tais coisas não podem ser assim, pois adquiriu o poder de ver o mundo em três dimensões — fato, conotações e a verdade geral ou probabilidade. A mente não se prende nem na primeira nem na segunda posição.
Para desenvolver nos jovens este poder de se movimentar livremente entre as percepções, os professores devem possuí-lo eles mesmos. Devem, é claro, saber como evitar concepções errôneas e como persuadir e animar os espíritos mais fracos a superarem as adversidades. Mas se, por acaso, eles forem especialistas, eles não devem abandonar as leituras para ensinar a erudição a elas relacionada. Alguns dos resultados da erudição podem lançar luz sobre a obra e ao redor dela, mas a obra está lá para lançar sua própria luz; ela não é material para dissecação ou dissertação. E tudo nela pode ser aproveitado de maneira útil para o mundo e o Eu; é papel da imaginação estabelecer os elos.
Não há dúvida de que existem perigos nesse reino livre e aberto, assim como em qualquer outro. É fácil dizer bobagens e estabelecer conexões falsas. Mas a recompensa está fora de dúvida: é o prazer, renovável à vontade. Este prazer é a suprema utilidade dos clássicos. Todos os grandes juízes da existência humana disseram isso, de Milton, que chamou a leitura de “conversa com os espíritos-mestres”, a Virginia Woolf, que imaginou o Todo-Poderoso dizendo a São Pedro, a respeito dos recém-chegados ao céu: “Veja, estes não precisam de recompensa. Não temos nada para lhes oferecer... Eles amaram a leitura.” Só posso acrescentar uma coisa: é sempre tempo de parar de repetir os ditos dos sábios e começar a acreditar nele.
Jacques Barzun (1907- ), historiador, crítico, professor e ensaísta, é autor de mais de trinta livros, dos quais o mais recente, já lançado no Brasil, é Da Alvorada à Decadência: 500 anos de vida cultural no Ocidente, considerado sua obra-prima e publicado quando o autor já contava 93 anos. O presente artigo, de 1987, foi retirado de uma antologia de seus escritos, A Jacques Barzun Reader: Selections from his works, editada por Michael Murray e publicada por HarperCollins Publishers.
Escrito por Rodrigo Farias às 04h02
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