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Extremismos
Dentre as incontáveis comunidades temáticas do Orkut ( que nada mais são que listas de discussão com menos flexibilidade e um melhor visual), há duas dedicadas ao filósofo e articulista-eclético Olavo de Carvalho. Da "oficial", que conta com a participação do próprio, colhi esta pérola, num debate iniciado por mim mesmo ao perguntar ao grupo o que seria uma "esquerda saudável". Cito tal qual foi publicada pelo autor, pois seria cansativo adicionar "sic" a cada frase:
De fato, respondendo a pergunta do topico: Não existe esquerda saudavel. Esta na raiz, na essência da esquerda destruir a liberdade e os valores de nossa civilização. Não conheço absolutamente nenhum esquerdista que tenha um pingo de inteligencia, clareza ou honestidade. TODOS (sem excessão) são pessoas podres de alma.
E mais abaixo esse supra-sumo do olavismo complementa:
Se existe nunca escreveu um unico paragrafo de nenhum livro. Nunca fez um unico discurso ou pronunciamento. Se existe esta anonimo, silencioso e jamais apresentou ao mundo oque é de fato o pensamento de esquerda. Os que estão ai, que nascem das bases de Rosseau, Marx, e derivados não podem ser levados a sério em nenhum momento. TODO esquerdista antes de mais nada foge da realidade e da verdade como o rato do gato, não se se misturam são como agua e oleo. O Esquerdista, antes tem que fugir de toda a realidade e verdade que o cercam e só depois disso começam a disparar suas locubrações.
E esse é apenas um dos freqüentadores, um tipo que infelizmente tem infectado grupos que, de outra forma, poderiam ser bem mais saudáveis, como o Fórum Federalista. Mas a linguagem belicista e o maniqueísmo de década de 1950 do discurso político de Olavo de Carvalho têm feito escola. Para muitos jovens, como esse rapaz, é o que encontraram para opor aos lugares-comuns (e à pobreza comum) da cultura política brasileira. E quando essa opção não se faz acompanhar de senso crítico ou, reconheçamos, de uma inteligência mais favorecida, o resultado são essas manifestações de extremismo, essa visão rasteira e cretina de um mundo reduzido a um Fla x Flu cósmico entre mocinhos e vilões.
Gosto de debater, ponderar, procurar pontes entre pensamentos divergentes, mas começo a ficar farto desse tipo de irracionalismo.
Escrito por Rodrigo Farias às 11h02
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As mentiras de Fahrenheit 9/11
 ALI KAMEL
Quando o filme acabou, a platéia se levantou e aplaudiu. Como se pode enganar tanta gente assim, sem pudor, e ainda ganhar o prêmio principal de Cannes? Fahrenheit 9/11, de Michael Moore, que chamam de documentário, deveria receber outra qualificação. É um amontoado de mentiras e distorções, a serviço de uma teoria que o pior dos roteiristas rejeitaria: Bush, um idiota, é de uma família gananciosa, sustentada pelos sauditas, e, depois de tomar o poder com uma fraude, levou o país à guerra com o Iraque, que até então vivia pacificamente, apenas para que a indústria bélica à qual é ligado lucrasse mais.
O terror está a um passo de ganhar a guerra, pensei. Mas logo me tranqüilizei ao me lembrar de John Kerry se apresentando para o serviço, pateticamente batendo continência: "Não hesitarei em usar a força e não concederei a nenhuma nação ou organização internacional o poder de veto quando o assunto for a segurança dos EUA." Exatamente o que Bush fez: tentou o apoio internacional, não conseguiu, e foi à guerra, com o apoio do Congresso. Fico tranqüilo de saber que, com um ou o outro, terá continuidade a luta contra o terror islâmico, a pior ameaça que o mundo enfrenta desde o nazi-fascismo.
Aqui vou mostrar algumas mentiras do filme (há muitas outras). Uma pesquisa na imprensa americana e na internet ajudou muito. Principalmente, as informações coletadas por Dave Kopel, do partido democrata, mas eleitor de Ralph Nader, como Moore. Kopel é diretor de pesquisas do conservador Independence Institute. Conhece os desvios de Moore desde "Tiros em Columbine", porque, infelizmente, tem o defeito de defender o direito ao porte de armas. Os dados a seguir, vindos de mim, da imprensa ou de Kopel, foram checados nas fontes originais. |
Escrito por Rodrigo Farias às 10h32
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O primeiro resultado que a Fox deu sobre a Flórida foi pró-Gore, e não pró-Bush, como diz o filme. A Fox manteve esse prognóstico por seis horas até as duas da manhã, quando se retratou, dando a vitória a Bush. Mas, duas horas depois, pôs a eleição como indefinida.
- A recontagem de votos feita por jornais não deu a vitória a Gore, "em todos os cenários". Se a recontagem fosse feita apenas onde Gore a solicitou, a vitória seria de Bush. Se a recontagem fosse geral - o que Gore jamais solicitou - a vitória iria para Gore, se alguns critérios fossem seguidos, e para Bush, se os critérios fossem outros. Se Gore tivesse sido eleito, as mesmas suspeitas de fraude pesariam contra ele.
- Bush aparece num jantar de gala, dizendo: "Alguns os chamam de 'a elite'. Eu os chamo de 'a minha base'." Era o jantar anual da Al Smith Foundation, que recolhe fundos para hospitais, quando o convidado deve debochar de si mesmo. Gore, também convidado, fez o mesmo, mas Moore omite.
- O filme diz que Bush passou 42% dos seus primeiros oito meses em férias, segundo o "Washington Post". O levantamento incluía os fins de semana de trabalho em Camp David. Ninguém nota, mas numa das cenas, ao lado de Bush, está Tony Blair. Tirando os fins de semana, o tempo cai para 13%.
- O filme diz que, em agosto de 2001, Bush recebeu informe do FBI dizendo que "Osama bin Laden estava planejando atacar os EUA com aviões seqüestrados". "Bush pode ter achado o título vago", diz Moore, que corta a cena para Condoleezza Rice, revelando o título: "Bin Laden decidido a atacar dentro dos EUA." Engraçado, mas Moore omitiu o conteúdo do informe, uma colagem de informações de 97 e 98. A parte sobre aviões seqüestrados é o oposto do que o filme sugere: "Não fomos capazes de confirmar algumas das mais sensacionais ameaças como uma que nos chegou (...) em 98 dizendo que Bin Laden queria seqüestrar um avião para obter a libertação do sheik cego Umar Abd al Rahman e outros extremistas presos nos EUA."
- Na cena em que Bush passa sete minutos sem nada fazer após o ataque, na escolinha da Flórida, o filme diz que ele ficou lendo um livro chamado "Meu bode de estimação". Uma graça, mas o livro na verdade se chama "Domínio da leitura 2" ("Meu bode" é apenas um exercício do livro).
- O filme diz que 142 sauditas, incluindo 26 membros da família Bin Laden, foram autorizados a deixar o país, depois de 13 de setembro, quando o espaço aéreo estava fechado, graças à autorização de Bush. Ninguém teria sido interrogado. A verdade: Richard Clarke, então diretor de contraterrorismo e endeusado por Moore por ter se tornado um crítico de Bush, assumiu inteira responsabilidade pelo ato e garantiu que não pediu a autorização do presidente. A comissão do 11 de Setembro confirmou isso e atestou que todos os procedimentos legais foram observados, com o FBI interrogando a maioria. Basta ler as páginas 329 e 330 do relatório final.
- O filme "denuncia" que o serviço secreto protege a embaixada da Arábia Saudita, mas uma de suas missões é exatamente proteger as missões diplomáticas em Washington.
- O filme insinua que Bush recebeu delegados do Talibã, quando governador do Texas. É mentira. Eles visitaram a empresa Unocal para conhecer um projeto de gasoduto, apoiado por Clinton, deixado de lado em 98, e jamais retomado. A afirmação de que Hamid Karzai, presidente do Afeganistão, foi consultor da Unocal é mentirosa.
- O filme diz que os Bush teriam se beneficiado de US$ 1,4 bi que os sauditas investiram na empresa Carlyle, de onde o ex-presidente Bush é consultor. E afirma que os Bin Laden também seriam investidores da empresa. A verdade: Bush só se tornou consultor da Carlyle anos depois do fabuloso investimento saudita. Os Bin Laden investiram apenas US$ 2 milhões na Carlyle, um nada perto da fortuna deles. Fora isso, o super anti-Bush, George Soros, também é um investidor da Carlyle, assim como muitos ex-assessores de ex-presidentes democratas são ligados a ela. O filme diz que a Carlyle ganhou milhões com a guerra do Iraque, mas ela teve prejuízo: a única arma desenhada para o Exército, mas não comprada pelo governo Bush, foi o Cruzado, um sistema de mísseis que custou à empresa US$ 11 bi. O ex-presidente Bush deixou há tempos de ser consultor da empresa.
- O filme diz que Bush deu um mês a Bin Laden, pois não atacou o Afeganistão imediatamente. Moore deixa de contar que Bush passou um mês tentando obter o aval da ONU. Cobravam-lhe a "prova cabal" do envolvimento de Bin Laden, que, numa entrevista, dissera que não era o autor dos ataques, embora os aplaudisse. Moore, na ocasião, disse que, sem provas, Bin Laden tinha de ser visto como inocente. A invasão seria uma atrocidade, opinou. Poucos lembram, mas Bush invadiu o Afeganistão sem autorização da ONU. Só foi "perdoado" porque fitas de vídeo achadas em Cabul se tornaram a prova cabal.
- O filme diz que o Iraque jamais ameaçou os EUA ou assassinou americanos. Mas Saddam sempre acolheu terroristas como Abu Nidal, que matou americanos, sempre premiou com US$ 15 mil as famílias dos homens-bombas palestinos, que mataram judeus americanos, e sempre, em discursos e entrevistas, fez ameaças espalhafatosas aos EUA. Após o 11 de Setembro, Saddam declarou que o ataque era o começo da grande revanche.
- O número de congressistas com filhos no Exército - apenas um - está errado, são sete, dois no Iraque, um número baixo, mas para que mentir?
O filme é esse lixo. Nossa imprensa, sem revelar as mentiras, foi mais ou menos unânime: "brilhante, mas faccioso", "histórico, mas tendencioso", "bem pesquisado, mas panfletário". Para mim, a adversativa não é um pequeno problema. Porque não se pode compactuar com a mentira e a empulhação. Sobretudo quando não é necessário mentir para ser anti-Bush ou antiguerra. O filme desmerece os pacifistas que o aplaudem. E que continuarão a aplaudi-lo, a despeito de tudo. Porque vivemos tempos em que muita gente está cega e surda. Não quer ouvir nem ver a ameaça que nos cerca.
PS: se o leitor quiser mais pontos e detalhes dos que expus aqui, consulte www.oglobo.com.br/mundo .
ALI KAMEL é jornalista.
Escrito por Rodrigo Farias às 10h31
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O arrebatamento da paixão
“Descia eu uma tarde, numa leda paz de idéias e sensações, o Boulevard da Madalena, quando avistei, diante da estação dos ônibus, rondando no asfalto, num passo lento e felino, uma criatura seca, muito morena, quase tisnada, com dois fundos olhos taciturnos e tristes, e uma mata de cabelos amarelados, toda crespa e rebelde, sob o chapéu velho de plumas negras. Parei, como colhido por um repuxão nas entranhas. A criatura passou — no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de telhado, ao luar de janeiro. Dois poços fundos não luzem mais negra e taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. Não recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de seda, lustroso e ensebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma súplica por entre os dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais silenciosos que condenados, para um gabinete do Café Durand, safado e morno. Diante do espelho, a criatura, com a lentidão dum rito triste, tirou o chapéu e a romeira salpicada de vidrilhos. A seda puída do corpete esgarçava nos cotovelos agudos. E os seus cabelos eram imensos, de uma dureza e espessura de juba brava, em dois tons amarelos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a côdea de uma torta ao sair quente do forno. Como um riso trêmulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:
— E o nomezinho, hein?
Ela séria, quase grave:
— Madame Colombe, 16, Rua do Hélder, quarto andar, porta à esquerda.
E eu (miserável Zé Fernandes!) também me senti muito sério, trespassado por uma emoção grave, como se nos envolvesse, naquela alcova de Café, a majestade de um sacramento. A porta empurrada levemente, o criado avançou a face nédia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentões, o Borgonha. E foi somente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a boca, todo a tremer, num beijo profundo e terrível, em que deixei a alma, entre saliva e gosto de pimentão! Depois, numa tipóia aberta, sob um bafo mole de leste e de trovoada, subimos à Avenida dos Campos Elísios. Em frente à grade do 202, murmurei, para a deslumbrar com meu luxo: ‘Moro ali todo o ano!...’ E como ao mirar o palacete, debruçada, ela roçara a mata fulva do pêlo crespo pela minha barba — berrei desesperadamente ao cocheiro que galopasse para a Rua do Hélder, nº 16, quarto andar, porta à esquerda! Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com amor, com todos os amores que estão no amor, o amor divino, o amor humano, o amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julieta, como um bode ama uma cabra. Era estúpida, era triste. Eu delicadamente apagava a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com inefável gosto afundava a minha razão na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas semanas perdi a consciência da minha personalidade de Zé Fernandes — Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se me afigurava ser um pedaço de cera que se derretia, com horrenda delícia, num forno rubro e rugidor; ora me parecia ser uma faminta fogueira onde flamejava, estalava e se consumia um molho de galhos secos. Desses dias de sublime sordidez só conservo a impressão de uma alcova forrada de cretones sujos, de uma bata de lã de cor de lilás, com soutaches negros, de vagas garrafas de cerveja no mármore de um lavatório, e de um corpo tisnado que rangia e tinha cabelos no peito. E também me resta a sensação de incessantemente e com arrobado deleite me despojar, arremessar para um regaço, que se cavava entre um ventre sumido e uns joelhos agudos, o meu relógio, os meus berloques, os meus anéis, os meus botões de punho de safira, e as cento e noventa e sete libras de ouro que eu trouxera de Guiães numa cinta de camurça. Do sólido, decoroso, bem fornecido Zé Fernandes, só restava uma carcaça errando através de um sonho, com as gâmbias moles e a baba a escorrer. Depois, uma tarde, trepando com as costumada gula a escada da Rua do Hélder, encontrei a porta fechada — e arrancado da ombreira aquele cartão de Madame Colombe, que eu lia sempre tão devotamente e que era a sua tabuleta... Tudo no meu ser tremeu como se o chão de Paris tremesse! Aquela era a porta do mundo que ante mim se fechara! Para além estavam as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ela. E eu ficara sozinho, naquele patamar do não-ser, fora da porta que se fechara, único ser fora do mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoerência de uma pedra, até ao cubículo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas em ditosa pachorra, como se tão pavoroso abalo não tivesse desmantelado o universo!
— Madame Colombe?
A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
— Já não mora... Abalou esta manhã, para outra terra, com outra porca!
Escrito por Rodrigo Farias às 18h53
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Para outra terra! Com outra porca!... Vazio, negramente vazio de todo o pensar, de todo o sentir, de todo o querer — boiei aos tombos, como um tonel vazio, na corrente açodada do Boulevard, até que encalhei num banco da Praça da Madalena, onde tapei com as mãos, a que não sentia a febre, os olhos a que não sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando já se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, dentre todas estas confusas ruínas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas as ruínas — a idéia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos entorpecidos dum ressuscitado. E, numa recordação que me escaldava a alma, encomendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o colarinho, ensopado pelo ardor daquela tarde de Julho, entre a poeira da Madalena, pensei com desconforto: - "Santíssimo Nome de Deus! Que imensa sede me fez esta desgraça!..." De manso acenei ao moço: - "Antes do Borgonha, uma garrafa de Champanhe, com muito gelo, e um grande copo!..." Creio que aquele Champanhe se engarrafara no Céu onde corre perenemente a fresca fonte da Consolação, e que na garrafa bendita que me coube penetrara, antes de arrolhada, um jorro largo dessa fonte inefável. Jesus! que transcendente regalo, o daquele nobre copo, embaciado, nevado, a espumar, a picar, num brilho de ouro! E depois, garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Conhaque! E depois Hortelã-Pimenta granitada em gelo! E depois um desejo arquejante de espancar, com o meu rijo marmeleiro de Guiães, a porca que fugira com outra porca! Dentro da tipóia fechada, que me transportou num galope ao 202, não sufoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde via, furiosamente via a mata imensa de pêlo amarelo, em que a minha alma uma tarde se perdera, e três meses se debatera, e para sempre se emporcalhara! Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava tão desesperadamente a besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dois moços acudiram e me sustiveram, recebendo pelos ombros, sobre as nucas servis, os restos cansados da minha cólera. Em cima, repeli a solicitude do Grilo que tentava impor ao siô Zé Fernandes, a Zé Fernandes de Guiães, a imensa indignidade dum chá de macela! E estirado no leito de D.Galião, com as botas sobre o travesseiro, o chapéu alto sobre os olhos, ri, num doloroso riso, deste Mundo burlesco e sórdido de Jacintos e de Colombes! E de repente senti uma angústia horrenda. Era ela! Era a Madame Colombe, que esfuziara da chama da vela, e saltara sobre o meu leito, e desabotoara o meu colete, e arrombara as minhas costelas, e toda ela, com as saias sujas, mergulhara dentro do meu peito e abocara o meu coração, e chupava a sorvos lentos, como na rua do Hélder, o sangue do meu coração! Então, certo da Morte, ganindo pela tia Vicência, pendi do leito para mergulhar na minha sepultura, que, através da névoa final, eu distinguia sobre o tapete - redondinha, vidrada, de porcelana e com asa. E, sobre a minha sepultura, que tão irreverentemente se assemelhava ao meu vaso, vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, num esforço ultra-humano, com um rugido, sentindo que, não somente toda a entranha, mas a alma se esvaziava toda, vomitei Madame Colombe! Recaí sobre o leito de Galião...Recarreguei o chapéu sobre os olhos para não sentir os raios do Sol... Era um sol novo, um sol espiritual, que se erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma criancinha docemente embalada num berço de verga pelo Anjo da guarda. De manhã, lavei a pele num banho profundo, perfumado com todos os aromas do 202, desde folhas de limonete da Índia até essência de jasmim de França; e lavei a alma com uma rica carta da tia Vicência, em letra farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da compota de ginja que nunca lhe saíra tão fina, e da alegre fogueira do pátio em noite de S. João, e da menininha muito gorda e cabeluda que viera do Céu para a minha afilhada Joaninha. Depois, à janela, bem limpo de alma e de corpo, numa quinzena de sedinha branca, tomando chá de Naipô, respirando os rosais do jardim revividos pela chuva da madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me emporcalhara, na rua do Hélder, com um estardalho muito magro e muito tisnado! E concluí que padecera duma longa sezão, sezão da carne, sezão da imaginação, apanhada num charco de Paris - nesses charcos que se formam através da Cidade com as águas mortas, os limos, os lixos, os tortulhos e os vermes duma Civilização que apodrece.”
(Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras)
Escrito por Rodrigo Farias às 18h53
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