Divagações
   Revendo conceitos: globalização

Quando uma palavra ou expressão é muito repetida como solução e explicação última para um grande número de coisas, de modo que nem mais pensamos em defini-la, há uma grande probabilidade de que ela seja mal compreendida. "Justiça social", por exemplo, representa melhor distribuição de renda para uns e ditadura do proletariado para outros; "liberdade" pode variar do livre-arbítrio moral, mais abstrato, à defesa de um privilégio ou "direito especial" (cotas universitárias, por exemplo) ou a negação de um dever socialmente estabelecido (como sonegar de impostos). Enfim, o sentido das palavras mais comuns pode ser torcido à vontade, sem que nos demos a devida conta.

"Globalização" é uma dessas. Todo o mundo fala, quase ninguém sabe direito o que é. Ataca-se e defende-se, num dilúvio de literatura acadêmica, política e jornalística, mas quanto se lembram de verificar o sentido e a sua validade empírica? Nesse sentido, é saudável que surjam livros como "Globalização em Questão: A economia internacional e as possibilidades de governabilidade", de Paul Hirst e Grahame Thompson, Ed. Vozes. Transcrevo aqui o prefácio, para servir de estímulo à leitura e alerta aos visitantes em geral.
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"O brasileiro tem alma de cachorro de batalhão; aparece uma palavra nova e sai todo mundo atrás". A frase de Nelson Rodrigues descreve exatamente o que aconteceu com a "globalização". O assunto virou uma verdadeira mania nacional. A atitude varia do encantamento ao pânico, do fascínio à repulsa. Mas há um quase consenso de que se trata de um debate altamente prioritário.

O que tem faltado em toda essa discussão é uma certa dose de ceticismo. Poucos se dão ao trabalho de examinar os dados básicos do quadro econômico internacional e confrontá-los com a retórica barulhenta dos entusiastas e dos adversários da "globalização". Quem o fizer, verá que tem havido grande exagero e mistificação quanto ao alcance e à novidade do processo de expansão das atividades econômicas internacionais nestas décadas finais do século XX.



 Escrito por Rodrigo Farias às 11h48
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Não há dúvida de que tem ocorrido forte expansão das transações internacionais, especialmente no terreno financeiro. A ninguém escapa que o progresso técnico em áreas como informática e teleco- municações, associado à diminuição do,s custos de transporte, tem favorecido a integração dos mercados nacionais e a internacionalização dos processos de produção em muitos setores da economia.

E preciso, entretanto, acautelar-se contra as interpretações exa- geradas e até fantasiosas que se constroem e divulgam a partir desses fenômenos reais. Tanto mais que esses exageros e fantasias estão longe de serem politicamente inocentes.

Ao contrário do que sugere o uso generalizado de expressões como "globalização" ou "mundialização" da economia, os mercados nacionais continuam preponderantes, sobretudo nos países maiores. A demanda interna absorve uma parcela largamente predominante da produção de bens e serviços e responde pelo grosso dos empregos gerados. Na grande maioria dos países, mesmo em desenvolvimento, a poupança externa financia uma parte relativamente pequena da formação bruta de capital fixo. Os mercados nacionais de trabalho permanecem altamente segmentados por políticas restritivas de imi- gração e outros obstáculos à entrada de trabalhadores estrangeiros. As empresas, inclusive aquelas que operam intensamente no campo internacional, não se desvinculam dos seus países de origem e têm, em geral, um centro de gravidade nacional claramente identificável; na sua grande maioria, não são "transnacionais", mas empresas nacionais com atuação no exterior. Mesmo no campo das finanças, a internacionalização recente tem precedentes históricos e é mais limitada do que alega a maioria dos analistas e comentaristas econômicos. A despeito da rápida expansão das transações internacionais nos últimos trinta anos, os movimentos líquidos de capital, em relação ao tamanho das economias, ainda são menores do que foram nas décadas anteriores à Primeira Guerra Mundial. O grosso da poupança fica nos países onde é gerada. E como grande parte dos fluxos financeiros internacionais é composta de capitais de curto prazo, que se deslocam rapidamente em resposta a mudanças nas, condições financeiras, os países não podem apoiar os seus planos de desenvolvimento na absorção de recursos externos. Aqueles que se envolvem excessivamente com os instáveis mercados financeiros intefnacionais e acreditam demais nas promessas e oportunidades da "globalização financeira" acabam submetidos a crises cambiais e finariceiras, com graves conseqiiências em termos econômicos, sociais e políticos.

Este livro de Paul Hirst e Grahame Thompson é um valioso antídoto contra as falácias e vulgaridades que marcam o debate sobre a "globalização". Na vasta literatura sobre o tema, poucos trabalhos se comparam a este. Os autores demonstram, com rigor e riqueza de detalhes, que a "globalização" é, em grande medida, um mito, uma ideologia que tende a paralisar as iniciativas nacionais.

Em um país como o nosso, ainda marcado pelas inibições e hábitos mentais do período colonial, a ampla difusão de avaliações extravagantes sobre a suposta "globalização" ou "mundialização" da economia tem produzido estragos consideráveis. A qualidade do debate tem deixado muito a desejar. Nunca tantos disseram tanta bobagem em tão pouco tempo. Segundo as versões mais exaltadas, estaríamos indefesos diante de movimentos irreversíveis e forças internacionais avassaladoras. Aos Estados nacionais, especialmente na periferia subdesenvolvida, só restaria a submissão e a aceitação passiva de um processo inexorável de desenvolvimento das forças produtivas em escala global.

Cria-se, desta maneira, um ambiente intelectual ideal para adotar as políticas econômicas e sociais favoráveis aos interesses econômico-financeiros que operam no plano internacional. Evidentemente, não se trata de um fenômeno brasileiro. Como observou Michel Rogalski, em muitos países, inclusive desenvolvidos, a "mundialização" é invocada para facilitar a aplicação de políticas que beneficiam os setores mais ligados ao exterior, em detrimento muitas vezes da maior parte da população.

A ideologia da "globalização" funciona, além disso, como conveniente cortina de fumaça. Os governos têm-se servido da "globalização" para isentar-se de responsabilidade por tudo de negativo que acontece na economia, transferindo-a para o âmbito de forças supranacionais fora do seu controle. Se aumenta o desemprego, por exemplo, logo aparece quem se disponha a atribuir o fenômeno à "globalização". Se empresas nacionais são absorvidas por grupos estrangeiros, a explicação é imediata: são as exigências da competição em uma economia "globalizada". Se o país aparece como vulnerável a turbulências financeiras externas, a culpa é da instabilidade dos mercados financeiros "globais". A "globalização" virou pau para toda obra. É desculpa para tudo e desfruta, além disso, da imortal popularidade de explicações que economizam esforço de reflexão.

Foi em boa hora, portanto, que a editora Vozes resolveu publicar este livro em português. Contribui, assim, para que o leitor brasileiro tenha acesso a análises mais objetivas e fundamentadas do contexto internacional e possa defender-se melhor de ideologias que correm o mundo em busca de consumidores desavisados.

Paulo Nogueira Batista , professor da Fundação Getúlio Vargas.

 



 Escrito por Rodrigo Farias às 11h42
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   Para futuros autores...

...uma "grande" novidade. E assim se vão minhas esperanças de um dia escrever um romance e, quem sabe, enriquecer e prosperar como o Balzac dos trópicos... Pelo visto, o jeito é fazer um concurso e entrincheirar-me numa sinecura, recebendo uma pequena fortuna do Estado para garantir o trânsito de inúmeros papéis timbrados. Afinal, quem precisa de neurônios ativos quando se tem um emprego público estável e sobre-remunerado?

(Do site http://www.comciencia.br)

 

Mercado editorial brasileiro é fraco,
diz pesquisa divulgada no Rio

Os pesquisadores Fábio Sá Earp, da UFRJ, e George Kornis, da UERJ, divulgaram no dia 16 de setembro, na abertura de uma feira conhecida como Primavera dos Livros, no Rio de Janeiro, os resultados de um estudo que reuniu estatísticas anuais da Câmara Brasileira do Livro e do Sindicato Nacional de Editores de Livros, e comparou-as com dados de outros países. Segundo a pesquisa, enquanto o Brasil produz cerca de 1,8 exemplares por habitante a cada ano, na França, a produção anual é de aproximadamente 6,7 exemplares por habitante. Nos Estados Unidos, onde a população é 1,5 vez maior que a do Brasil, a compra de livros pelo governo destinada a estudantes é seis vezes maior que aqui. No Japão, um livro custa em média 0,35% da renda média per capita daquele país, enquanto no Brasil, apesar do preço médio de um livro ser 2,8 vezes menor que no Japão, ele representa 1% da nossa renda média per capita. A pesquisa de Earp e Kornis, que durou um ano e meio e foi financiada pelo BNDES, também revela que nos últimos oito anos o faturamento das editoras brasileiras caiu 48% e o número de exemplares vendidos diminuiu 50%.

 



 Escrito por Rodrigo Farias às 11h55
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21/09/2004 - 06h30
Tóquio estuda normativa para proibir sexo entre adolescentes

Tóquio, 21 set (EFE).- O governo municipal de Tóquio estuda a possibilidade de implantar uma ordem que obrigue pais e tutores a impedir que seus filhos adolescentes mantenham relações sexuais, indicaram hoje, terça-feira, funcionários municipais.

Segundo as fontes, citadas pela agência Kyodo, há uma forte divisão no seio da própria Prefeitura da capital sobre a conveniência de aplicar uma normativa que, segundo seus defensores, "tenta frear a transmissão de doenças sexuais e abortos entre os jovens".

Os que rejeitam na Prefeitura este curioso projeto de ordem, ressaltam que seus efeitos serão contraproducentes, dado o delicado do tema e seus efeitos na vida familiar.

O principal defensor da idéia, o tenente prefeito de Tóquio, Yutaka Takehana, um ex-policial que atualmente se encarrega de questões juvenis na Administração metropolitana, ressaltou que a aplicação da medida não implicaria em qualquer sanção penal.

"Ao estabelecer essas obrigações aos pais e outros adultos, a fim de que se esforcem nesse sentido, se poderá transmitir essa mesma determinação (para acabar com o "problema") aos meninos", disse Takehana.

Por enquanto, a Administração criará amanhã um comitê de especialistas, entre os quais haverá professores de ensino secundária, para examinar o projeto de ordem e outras questões relacionadas com o sexo juvenil, além de recomendar outras medidas alternativas.

Segundo a Prefeitura, nos últimos anos se disparou a "atividade sexual" entre os adolescentes desta cidade de doze milhões de habitantes, em uma boa parte dos casos sem proteção de anticoncepcionais.

Em uma enquete feita por professores de institutos e centros de educação secundária na capital japonesa em 2002, 6,8% dos meninos e 8,7% das meninas perguntadas reconheciam que começaram a ter relações sexuais aos 14 ou 15 anos de idade.

Em declarações a Kyodo, o ginecologista Tsuneo Akaeda, que faz parte do citado comitê de especialistas da Prefeitura de Tóquio, explicou que "há muitas adolescentes que não sabem dizer não a um menino de quem gosta e que lhes pede para manter uma relação sexual".

Por isso, acrescentou, "o que tem de mau se for feita uma ordem que proíba os jovens de praticar sexo antes dos 15 anos?".

Sayoko Ishii, um advogado especializado em problemas familiares e juvenis, manifestou a Kyodo uma opinião contrária a essa normativa.

"Ao dizer a eles 'não' com uma ordem, a única coisa que vamos provocar é a rebeldia entre os jovens e aumentar as desditas dos pais", afirmou Ishii.



 Escrito por Rodrigo Farias às 11h36
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   O absurdo como mérito

“Com uma atmosfera saturada de relatos de achados científicos contrários ao senso comum; poemas e peças e pinturas ‘que são expressões do nosso tempo’, na verdade enigmas sem uma pista; teorias críticas a nos ensinar que os significados superficiais são uma fachada e que só os ocultos realmente importam; ou ainda, que não havendo intenção por parte do autor, não há qualquer significado distinguível na obra; enfim, leis e regras que nos enredam em situações fantásticas (...) — tantos encontros diários com o absurdo o tornaram parte da nossa mobília mental regular. (...) Qualquer doutrina ou programa que reclame o mérito de ir contra o senso comum já tem uma presunção a seu favor — uma grande descoberta se anuncia. Enquanto antigamente o seu proponente seria considerado um charlatão, hoje ele é o portador da novidade e da luz.”

 

Jacques Barzun, “From Dawn to Decadence”, pp. 757-758 (grifo meu).

 Escrito por Rodrigo Farias às 11h17
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