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Dilema
Estou considerando a idéia de mudar o endereço do Divagações. Visitando o blog de um amigo no Blogspot, descobri que o número e a qualidade dos modelos de lá aumentaram muito, daí a tentação da mudança. Reativei uma conta já quase esquecida, readaptei-me às peculiaridades técnicas e rascunhei uma nova versão deste modesto refúgio de pensamentos e citações.
Encontro-me no dilema de mudar ou não mudar. Que pensam vocês, meus poucos e fiéis leitores? Gostaria de ouvi-los. O endereço do "outro" blog é http://azel.blogspot.com.
Um abraço fraterno, Rodrigo.
Escrito por Rodrigo Farias às 22h51
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Um dia com Vladimir Palmeira
"Se você quer conhecer a direita, vá ler Roberto Campos, que é quem acrescenta. Não Olavo de Carvalho". Noutros tempos eu faria uma objeção, mas não desta vez. Quando Vladimir Palmeira, o legendário líder estudantil dos anos 60, se anima a discorrer sobre política, convém prestar atenção. Ouvindo-o falar com a desenvoltura e a simplicidade que lhe são típicas, realçadas pela informalidade erudita da aula, não pude deixar de registrar o conselho. O simpático sessentão à minha frente, de topete cada vez mais ralo e sotaque nordestino, tinha credenciais para isso.
Um desafio ambulante aos estereótipos apocalípticos do esquerdista tão queridos e propalados por Olavo e cia., Vladimir tornou-se com o passar dos anos uma espécie de franco-atirador do bom-senso. Lança petardos irônicos mas certeiros à direita e à esquerda, mas é especialmente severo com seus camaradas de campo político. "A esquerda no Brasil parou na II Internacional, por isso é que todo o mundo é estatista e nacionalisteiro", declara. "O marxismo se tornou a ideologia oficial dos professores de História", daí os livros didáticos conterem simplificações e confusões conceituais grosseiras, das quais uma das mais evidentes é o uso e abuso do termo "burguesia": "Fala-se de 'burguesia' no século XVI e no século XIX como se fossem a mesma coisa, e não são", uma das conseqüências da contaminação por esquematismos doutrinários que grassam no campo. Contaminação essa, aliás, que nada tem de propriamente acadêmico, já que para Vladimir um dos grandes problemas para quem se pretenda marxismo é distinguir entre sua parte doutrinária, dogmática, de caráter um tanto religioso e até escatológico, e a abordagem científica. São elementos entrelaçados, que infelizmente são aceitos acriticamente há décadas numa série de mal-entendidos, interpretações forçadas e temores sagrado.
O marxismo morreu? Para Vladimir, não. "O marxismo influenciou a mentalidade mais do que o mundo", diz, referindo-se às contribuições que a abordagem de Marx e Engels deram às ciências humanas, sobretudo no âmbito metodológico. Na História, por exemplo, foram eles influências fundamentais para a chamada Escola dos Annales, que moveu uma cruzada contra a história factualista e superficial, afeita a grandes homens e grandes feitos, que predominou no século XIX e início do XX. Seria tolice rejeitar esse legado concreto, como certos fósseis anticomunistas gostariam que fosse feito, por razões muito diferentes de preocupações científicas ou filosóficas. Por outro lado, para dar conta do capitalismo de hoje, o marxismo teria de passar por uma atualização ampla, e seriam precisos uns "dez Marx" para esse empreendimento. Coisa, aliás, que a maior parte da esquerda, atolada em slogans, mecanicismos e aspirações que há muito caducaram, não é capaz de fazer. A superação do estatismo e do planejamento econômico à la URSS certamente teria de constar dessa agenda.
É possível pensar um socialismo viável após a ruína do bloco comunista? Ele acha que sim, e diz que isso incluiria um elemento que ainda horroriza as hostes vermelhas: o mercado. Sim, e isso mesmo: qualquer regime econômico viável para o velho militante tem de incorporar a menina-dos-olhos dos liberais. O velho sistema de oferta e demanda espontâneas. "Ora", dirá um saudosista do PCB, "mas isso não é capitalismo!?". Aí é que está: o socialismo não se define, como muitos pensam por conta da URSS, por economia planificada e artificial, e sim pela posse socializada dos meios de produção. Por posse socializada, não se quer dizer posse estatal, e tampouco gerenciamento por burocratas, e sim a gestão desses meios de produção pelos trabalhadores que nele trabalham de alguma forma. Mas cada empresa atuaria obedecendo ao sistema de mercado, tendo de sobreviver por conta própria e correndo o risco de falência exatamente como acontece numa economia capitalista. É o que Vladimir chama de “socialismo de mercado” ou autogestionário.
A idéia não é nova. Na verdade, até o termo “socialismo de mercado” já é adotado com pelo menos mais dois significados além desse: capitalismo de estilo social-democrata e sistema misto de múltiplas formas de propriedade. Diz Vladimir que nos anos 80 a autogestão foi muito debatida, mas ainda dentro de um pensamento ainda preso a certos ranços estatistas. Perguntei-lhe quem, especificamente, estaria pensando nessa questão, mas ele não indicou nenhum autor específico, dizendo apenas que tinha certeza de que havia mais gente tentando desenvolver essa idéia. Infelizmente, o fim da aula já se aproximava e não foi possível pedir mais detalhes. Inclusive sobre como se poderia instalar um tal modelo de forma pacífica, se é que ele acreditava que isso seria possível.
Considerando que as discussões políticas que tenho podido acompanhar não têm ido além do esquerdismo rasteiro de graduandos, de um lado, e o discurso raivoso e igualmente vulgar dos neo-direitistas virtuais, assistir à exposição de Vladimir foi alentador. Trata-se de alguém que é capaz de criticar o um sistema como o marxismo sem satanizá-lo ou reduzi-lo a uma caricatura, procurando extrair o que ele ainda tem a oferecer dentro de seus limites, sem para isso ter de soar a trombeta do armagedom olaviano ou se valer da velha cantilena radical. É alguém que, a despeito de qualquer posição ideológica, ganhou o meu respeito.
Escrito por Rodrigo Farias às 00h56
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Noturno
Brumoso navio o que me carrega por um mar abstrato. Que insigne alvedrio prende à idéia cega teu vago retrato?
A distante viagem adormece a espuma breve da palavra: - máquina de aragem que percorre a bruma e o deserto lavra.
Ceras de mistério selam cada poro da vida entregada. Em teu mar, no império de exílio onde moro, tudo é igual a nada.
Capitão que conte quem és, porque existes, deve ter havido. Eu? - bebo o horizonte... Estrelas mais tristes. Coração perdido.
Sonolentas velas hoje dobraremos: - e a nossa cabeça. Talvez dentro delas ou nos duros remos teu NOME apareça.
(Cecília Meireles)
Escrito por Rodrigo Farias às 15h11
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Amor & Fidelidade
O artigo a seguir me deixou chocado. Não pelo tema em si, ou pela forma brilhantemente simples como a idéia é apresentada. Não. O que me causou impacto foi que, lendo-o, percebi como os valores vigentes hoje em relação a relacionamentos e concepções de amor se chocam com a idéia por trás de uma das nossas instituições mais antigas e fundamentais. Uma obviedade, dirão. Mas certas obviedades precisam ser enunciadas de vez em quando.
Antes, casávamo-nos por compromisso, segurança ou, como denunciava Paulo de Tarso em uma de suas epístolas, para "não nos abrasarmos", mantendo nossos desejos dentro dos limites do dever. Aos poucos, os séculos foram nos ensinando a valorizar mais os sentimentos e menos as convenções, ou pelo menos a tentar juntar as duas coisas. Hoje, porém, essa tentativa parecer ter chegado a um paroxismo: o sentimento (não raro o impulso) adquiriu uma proeminência tamanha que o casamento parece ser visto mais como uma espaço de eterna delícia, tendo o divórcio como cirurgião em caso de satisfação inferior a 100%. Há toda uma ideologia romântica, a que já me referi em posts anteriores, que não raro exacerba expectativas e contribui para minar as chances de sucesso de qualquer relação estável. Numa época em que tantos casamentos mal chegam a cinco anos e terminam por razões frívolas, o texto de Kanitz é um lembrete útil do que significa o mais antigo dos enlaces.
VEJA, 29 de setembro de 2004
Ponto de vista: Stephen Kanitz O contrato de casamento
"Casamento é o compromisso de aprender a resolver as brigas e as rusgas do dia-a-dia de forma construtiva, o que muitos casais não aprendem, e alguns nem tentam aprender"
Na semana passada comemorei trinta anos de casamento. Recebemos dezenas de congratulações de nossos amigos, alguns com o seguinte adendo assustador: "Coisa rara hoje em dia". De fato, 40% de meus amigos de infância já se separaram, e o filme ainda nem terminou. Pelo jeito, estamos nos esquecendo da essência do contrato de casamento, que é a promessa de amar o outro para sempre. Muitos casais no altar acreditam que estão prometendo amar um ao outro enquanto o casamento durar. Mas isso não é um contrato. Recentemente, vi um filme em que o mocinho terminava o namoro dizendo "vou sempre amar você", como se fosse um prêmio de consolação. Banalizamos a frase mais importante do casamento. Hoje, promete-se amar o cônjuge até o dia em que alguém mais interessante apareça. "Eu amarei você para sempre" deixou de ser uma promessa social e passou a ser simplesmente uma frase dita para enganar o outro. Contratos, inclusive os de casamento, são realizados justamente porque o futuro é incerto e imprevisível. Antigamente, os casamentos eram feitos aos 20 anos de idade, depois de uns três anos de namoro. A chance de você encontrar sua alma gêmea nesse curto período de pesquisa era de somente 10%, enquanto 90% das mulheres e homens de sua vida você iria conhecer provavelmente já depois de casado. Estatisticamente, o homem ou a mulher "ideal" para você aparecerá somente, de fato, depois do casamento, não antes. Isso significa que provavelmente seu "verdadeiro amor" estará no grupo que você ainda não conhece, e não no grupinho de cerca de noventa amigos da adolescência, do qual saiu seu par. E aí, o que fazer? Pedir divórcio, separar-se também dos filhos, só porque deu azar? O contrato de casamento foi feito para resolver justamente esse problema. Nunca temos na vida todas as informações necessárias para tomar as decisões corretas. As promessas e os contratos preenchem essa lacuna, preenchem essa incerteza, sem a qual ficaríamos todos paralisados à espera de mais informação. Quando você promete amar alguém para sempre, está prometendo o seguinte: "Eu sei que nós dois somos jovens e que vamos viver até os 80 anos de idade. Sei que fatalmente encontrarei centenas de mulheres mais bonitas e mais inteligentes que você ao longo de minha vida e que você encontrará dezenas de homens mais bonitos e mais inteligentes que eu. É justamente por isso que prometo amar você para sempre e abrir mão desde já dessas dezenas de oportunidades conjugais que surgirão em meu futuro. Não quero ficar morrendo de ciúme cada vez que você conversar com um homem sensual nem ficar preocupado com o futuro de nosso relacionamento. Nem você vai querer ficar preocupada cada vez que eu conversar com uma mulher provocante. Prometo amar você para sempre, para que possamos nos casar e viver em harmonia". Homens e mulheres que conheceram alguém "melhor" e acham agora que cometeram enorme erro quando se casaram com o atual cônjuge esqueceram a premissa básica e o espírito do contrato de casamento. O objetivo do casamento não é escolher o melhor par possível mundo afora, mas construir o melhor relacionamento possível com quem você prometeu amar para sempre. Um dia vocês terão filhos e ao colocá-los na cama dirão a mesma frase: que irão amá-los para sempre. Não conheço pais que pensam em trocar os filhos pelos filhos mais comportados do vizinho. Não conheço filho que aceite, de início, a separação dos pais e, quando estes se separam, não sonhe com a reconciliação da família. Nem conheço filho que queira trocar os pais por outros "melhores". Eles aprendem a conviver com os pais que têm. Casamento é o compromisso de aprender a resolver as brigas e as rusgas do dia-a-dia de forma construtiva, o que muitos casais não aprendem, e alguns nem tentam aprender. Obviamente, se sua esposa se transformou numa megera ou seu marido num monstro, ou se fizeram propaganda enganosa, a situação muda, e num próximo artigo falarei sobre esse assunto. Para aqueles que querem ter vantagem em tudo na vida, talvez a saída seja postergar o casamento até os 80 anos. Aí, você terá certeza de tudo.
Escrito por Rodrigo Farias às 12h51
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